O Canto da Sereia: mistério e Carnaval

Tudo que eu desejo é arriscado. Mas Yemanjá sempre me deu força e clareza para eu fazer uma passagem luminosa”. — OLIVEIRA, Sereia Maria de

Toda vez que uma emissora resolve ambientar uma produção no Nordeste — especialmente a Bahia — os estereótipos gritam de forma absurda, levando ao ar uma realidade muitas vezes distorcida, especialmente quando se trata de sotaques (ninguém tem costume de chamar os outros de “meu rei”, gente, convençam-se disso!). Mas, para a nossa alegria, recentemente a Globo veio com uma produção de causar inveja. O Canto da Sereia, minissérie em quatro capítulos exibida pelo canal em janeiro, trouxe um elenco afinado na baianidade.

A trama gira em torno da história de Sereia (Isis Valverde), uma cantora de axé que é assassinada em plena terça-feira de Carnaval enquanto passava com seu trio pela Praça Castro Alves, em Salvador. Cheia de dinâmica e flashbacks, a série — que é uma adaptação do romance de Nelson Motta — nos apresenta muito mistério e diversos suspeitos em potencial, que vão se alternando conforme avançamos na história.

Mas antes de falar dos suspeitos, vamos comentar a estrela da história. Isis entregou, logo de cara, uma Sereia melancólica e inconsequente ao mesmo tempo. A atriz, durante os quatro episódios, soube explorar bem a complexidade da personagem e fez um ótimo trabalho na construção dessa menina que parece tão inocente à primeira vista, mas que sabe lutar pelo que quer e ainda esbanja uma sensualidade de tirar o fôlego — como é comum nas personagens de Nelson Motta.

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Além disso, a menina fez o dever de casa em relação ao sotaque — que, mesmo exagerado na entonação em alguns momentos, estava bem convincente. Ela parecia bem a vontade no papel de uma cantora de axé, e mostrou que canta melhor que muita artista por aí (é claro que não pensei em ninguém específico, não é?). E, com certeza, a competência de Isis abrilhantou a trama e injetou uma boa dose de qualidade na produção.

A verdade é que o elenco como um todo se mostrou bem entrosado. Dessa forma, conhecemos Mara (Camila Morgado) — carinhosamente apelidada de Mara Amarga -, empresária de Sereia que briga com a cantora minutos antes de ela subir no trio. Temos ainda Tuta Tavares (Marcelo Médici), marqueteiro que também trabalha para o governador Jotabê (Marcos Caruso) que, ao ser acusado de corrupção, recebe reprovação de Sereia em pleno Carnaval.

Conhecemos ainda Paulinho de Jesus (Gabriel Braga Nunes), ex-produtor musical da artista, pois Sereia prestou queixa dele na polícia. E para completar, há um misterioso homem — que parece estar ligado ao passado de Sereia — que a ameaça publicamente. A verdade é que todos eles parecem ter um motivo para querer Sereia morta mas, ao mesmo tempo, parecem idolatrá-la, o que garante o mistério até o último minuto.

Destaque para Camila Morgado, arrasando em mais um trabalho. Mara é uma personagem que conseguimos amar e odiar em questão de minutos, graças ao trabalho da atriz, que apresenta essa personagem dúbia e cheia de segredos. Outro que arrasou foi João Miguel no papel de Só Love, assistente pessoal de Sereia, que é todo trabalhado no glamour.

E, assim, através das investigações de Guma, quer dizer, Augustão (Marcos Palmeira) — #PortoDosMilagresFeelings -, segurança e protetor de Sereia, somos conduzidos a três anos antes do crime para conhecer como todas aquelas pessoas entram na vida de Sereia e qual a ligação entre elas. Temos flashbacks também do passado da cantora, que revela muito dos motivos dela ter se tornado o que conhecemos no início. As entrevistas que Augustão faz com os potenciais suspeitos garantem toda a carga de mistério e dinâmica à série, prendendo o espectador até o fim, e adicionando mais uma suspeita na lista: a mãe-de-santo Marina (Fabíula Nascimento), que parece esconder diversos segredos que dizem respeito à protagonista. Ficamos curiosos, portanto, para saber quem mataria pessoa tão envolvente quanto Sereia.

Outro grande ponto positivo da série é a fotografia, com lindas tomadas de Salvador e cenas gravadas in loco. Coisa linda de se ver! A trilha sonora também foi responsável pelo sucesso da série, apresentando músicas famosas do axé, que são cantadas por Sereia, e também uma música inédita, feita especialmente para a série. Além do mais, a trilha usada durante as outras cenas também foi muito bem trabalhada.

O Canto da Sereia nos deu a prova de que somos capazes de entregar produtos de qualidade quando o assunto é série. Ao final do quarto episódio fica o gostinho de quero mais, de uma história que tinha tudo para ter vida mais longa. E, como disse muito bem o governador Jotabê, Sereia vive.

PS1: A série foi lançada em DVD recentemente. Então, não tem desculpa para não assistir!

PS2: Menção honrosa para Margareth Menezes como a delegada Pimenta. Não tinha nome mais apropriado para uma delegada baiana!

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