O caso do elefante branco na sala

Observe a imagem a seguir:

Se eu te perguntar o que você enxerga, é óbvio que irá dizer que se trata de Rihanna saindo do meio de plumas (isso se você conhecer a cantora Rihanna e se souber identificar que as coisas jogadas no chão são plumas). No entanto, alguns poderão afirmar que você está redondamente enganado e que se trata de uma alegoria da posição da mulher no mundo moderno e sua luta para sair do ostracismo em busca de reconhecimento e redenção.

E essa reflexão surgiu após os três episódios da novata Under the dome. Se você esteve em Plutão nos últimos anos e ainda não percebeu que o planeta foi rebaixado para a segunda divisão do Sistema Solar, não sabe do que eu estou falando. Trata-se na nova série baseada na obra de Stephen King e sofreu um lobby tão forte para sua estreia que só o fato de você não saber o que é a atração já poderia ser considerado um outsider.

A trama é bem peculiar. Em uma cidadezinha do interior, inexplicavelmente, uma redoma é colocada sobre o lugar, confinando as pessoas neste ambiente, sem poderem sair de lá. Algo meio parecido com o filme dos Simpsons, só que escrito muito tempo antes. E não vou dizer mais nada além disso, porque as pessoas estão bastante sensíveis com a série e encaram qualquer comentário sobre ela como spoiler.

Em conversas com fãs, internautas e apreciadores da série, expressei minha curiosidade em saber do que se tratava a redoma, qual o objetivo dela, o porquê dela estar ali causando tanto desconforto para a cidadela. Um desses se voltou para mim e disse: “Mas a série não é sobre a redoma”. Cara na poeira. E ele continuou: “A série é uma metáfora, uma alegoria, para discutir as relações sociais. O que menos importa é a redoma”. Cara na poeira #2.

Miranda 1

Li algumas obras de King e ele sempre usa o sobrenatural para abordar temas mais sérios, por vezes, mais complexos. A fixação pela imagem em Christine, o carro assassino. A repressão sexual em Carrie, a estranha. Todas elas jogando a compreensão para o plano figurativo. E não há nada de errado em fazer algo do tipo.

Compreendo isso. Mas então não posso mais indagar sobre a redoma? Vou mesmo ter que ignorar o elefante branco na sala?

Passado o choque inicial, percebi que não é a primeira vez que algo do tipo acontece. Existem outras séries que sofrem do mesmo mal. Quer um exemplo? The Walking Dead. Você, ingênuo internauta, acha que a série fala sobre zumbis, certo? ERRADO. E ai de você se comentar com alguém que a série é sobre zumbis. Você corre o risco de ser fuzilado e mandado para um campo de trabalhos forçados na Sibéria. Repita comigo: The Walking Dead é uma alegoria sobre a sociedade e as implicações políticas decorrentes das escolhas de seu povo.

Isso não é sobre você! Aceite isso!

E True Blood, que voltou linda, loira e japonesa, para uma nova temporada? Automaticamente você vai dizer que é uma série sobre vampiros. E mais uma vez você estará redondamente enganado. Pensa comigo: o que é, o que é? Tem dentes afiados, tem sede de sangue humano, se queima no sol, parece um vampiro, mas não é um vampiro? Fácil. Novamente, é uma metáfora para preconceito e posicionamento político diante das minorias. E você achando que era sobre vampiros, não?

True Blood? Vampiros? Quem disse isso?

O que está em questão não é a essa natureza multifacetada, polissêmica de uma obra artística. Afinal, se é uma obra de arte, é natural que existam várias relações de sentidos, especialmente quando é vista por muitas pessoas. O problema é você não querer aceitar que um espectador mais fundamental veja na obra esse mesmo plano fundamental, sem ir além.

Por isso que as séries da CW fazem tanto sucesso junto a um público menos exigente, menos interessado em desdobramentos de sentido, preocupados apenas com o que se apresenta na tela. Às vezes, um pepino é, de fato, só um pepino.

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