O Cravo e a Rosa: de Shakespeare a Walcyr Carrasco

Essa semana, a programação da TV brasileira se despede de um dos maiores sucessos — em termo de audiência — da teledramaturgia.

O Cravo e a Rosa, originalmente transmitida de junho de 2000 a março de 2001, reprisou pela segunda vez no Vale a Pena Ver de Novo desde agosto passado. Não só uma trama que se divide entre o drama e a comédia, O Cravo e a Rosa foi palco da disseminação de modelos culturais e estéticos de uma época de transformações na arte e na sociedade brasileira.

The Taming of the Shrew, obra de Augustus Egg

A começar pela inspiração para a novela, que foi baseado na peça teatral A Megera Domada, de William Shakespeare e teve claras referências aos folhetins A Indomável (1965) e O Machão (1976–78). A obra teria sido escrita através de informações por contos orais contados a Shakespeare, e na adaptação da novela poucos nomes foram mudados (Batista, Catarina, Bianca e Petrucchio são nomes próprios da peça).

A década de 20, palco de O Cravo e a Rosa, foi um momento de transformações no Brasil em vários fatores: político (tenentismo, Coluna Prestes, criação do Partido Comunista), sociais (momento de repensar o feminismo) e culturais (Semana de Arte Moderna de 1922).

Catarina — a megera — se apresenta inicialmente como uma mulher fincada nos ideais feministas, que teve na época Bertha Lutz como um dos seus maiores nomes. Até o início do século XX, a mulher não tinha espaço na política e na sociedade justamente por não ser pensada como um agente social. Lutz foi quem levantou a bandeira do feminismo e se prontificou a reorganizar o movimento, com a ajuda de senadores e escritores da época.

Julião Petrucchio, que a inicio busca a salvação financeira ao se casar com Catarina, é a imagem do patriarcalismo. Até o século XX, o casamento passava a noção de união indissolúvel, onde a figura masculina — por convenções sociais — era a cabeça da relação. Não necessariamente deveria ter sentimento entre os dois, até porque em alguns casos — como o de Petrucchio e Catarina — a união tinha foco na divisão dos bens e, sobretudo por influência da Igreja Católica, a procriação. Apenas com o crescimento do Romantismo, surgido no final do século XVIII, que o casamento ganhou laços amorosos.

O Cravo e a Rosa

Além disso, Petrucchio é a representação do contraste entre o grosseiro homem do campo e a cortesia da cidade, diferenças que ficam latentes no início do século XX. A industrialização, expressa ainda que timidamente (só vai se tornar atividade principal no Brasil com os governos populistas a partir dos anos 50), afirmou ainda mais essa dicotomia e criou estereótipos para cada um desses espaços geográficos. A economia rural encontrava-se em decadência e a produção industrial crescia e levava consigo homens e mulheres para a cidade.

Shakespeare não imaginara que A Megera Domada, pensada inicialmente como proposta de humor popular (Catarina e Petrucchio) em contraposição ao gosto sofisticado da aristocracia (Lucêncio e Bianca), poderia também servir como um tratado social para a sociedade brasileira nas mãos de Walcyr Carrasco, e entreter na mesma proporção em pleno século XXI.

P.S.: Esse texto é em homenagem à minha mãe, que é chamada de Catarina pelo seu “Petrucchio”.

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