O Grande Gonzalez 1×03 — Antônio

Para a alegria da criançada, O Grande Gonzalez desenvolve seu universo e subverte sua estrutura em Antônio.

Antônio representa uma mudança sutil, todavia muito importante para O Grande Gonzalez. Dessa vez, o suspeito na cadeira é o dono da casa de festas, um homem fraco, mas que exerce o seu poder de um modo muito familiar pra qualquer um que já ouviu o clássico “sabe com quem você está falando?”. Antônio é um personagem brasileiro, cujo maus-tratos dos seus empregados é caricata fora do Brasil, mas realista para muitos trabalhadores.

Novamente, a série surpreende com a sua habilidade de enriquecer o seu universo com conceitos brasileiros em um formato americano. É uma série que nunca vimos antes na TV brasileira, seja pela especificidade ampla do humor do Porta dos Fundos ou pelo jeito que a direção trabalha junto com o roteiro para criar uma investigação policial digna de um CSI. Um CSI: Nova Iguaçu, talvez?

Mas a parte mais decisiva de Antônio é que a série usa a relativa fraqueza do personagem principal para nos mostrar mais do relacionamento entre os dois policiais. Seria muito fácil O Grande Gonzalez relegar os investigadores a posição de coadjuvantes destinados a fazer perguntas que vão clarificar a situação para o público, mas ela dedica grande parcela do episódio a mostrar como funciona a relação desses dois caras, inclusive colocando pistas sobre o passado deles como dupla.

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O Palhaço/Gerardi nos deu pequenos traços de que nem tudo se resume a “policial bom e policial mau” com esses dois caras, mas é só em Antônio que vemos eles brigando, discutindo problemas entre si, e até discordando no caso da morte de Gonzalez. Muito disso se manifesta pela velha rotina do “fala pro meu parceiro que”, dando espaço para os roteiristas expandirem os pensamentos dos policiais enquanto avançam o relacionamento deles, tudo sobre o disfarce de mais uma piada.

Esse disfarce é muito usado neste episódio, principalmente na segunda mudança sutil — mas importante — do episódio. Até então, todos os interrogados alteravam as histórias na procura de uma posição melhor na visão dos policiais. Isso dá muito material para os atores, mas essa fórmula poderia ficar bem cansativa lá pro quinto episódio. Os roteiristas evitam esse futuro problema introduzindo a dúvida.

Antônio não sabe quem bateu nele. E pode ser que o palhaço que Antônio viu no caminhão não era o Rômulo que conhecemos. A distância entre as pessoas e os eventos importantes no assassinato de Gonzalez apareceu como piada em O Palhaço/Gerardi, mas em Antônio ela se torna evidência contra a história de Antônio.

Afinal, seres humanos não são perfeitos. Eles se confundem, esquecem coisas, misturam detalhes. Ás vezes, mudamos nossas memórias sem saber. Seria muito fácil introduzir uma nova pista no nono episódio e solucionar o crime em cinco segundos, mas os roteiristas mostram cuidado e paciência ao desenrolar a verdadeira história por trás do fim de Gonzalez. É bom ver que as piadas e o mistério são igualmente importantes na série.

O que impede o episódio de chegar ao status de ‘excelente’ é uma leve confusão levantada por uma piada recorrente sobre travestis. Como um homem heterosexual de raça mista e judeu, eu acredito que o humor não tem limites, exceto quando alguém tenta usar esta tão miraculosa arte como arma para oprimir e fazer mal às outras pessoas. Humor é algo muito subjetivo, e os próximos parágrafos são a minha opinião baseada na interpretação do episódio (se discordar, por favor comente, adoro conversar com outros sobre assuntos assim).

Não estou acusando o Porta dos Fundos de espalhar os mesmos estereótipos antiquados de travestis. Mas em O Palhaço/Gerardi, houve uma tendência de usar piadas sobre como os homens sendo interrogados seriam vítimas de estupro na prisão, que apenas aumentou quando o policial interpretado por Antônio Tabet se viu forçado a se vestir de travesti, que é a única coisa um pouco problemática no episódio. O foco da piada variava entre os problemas entre Antônio (o personagem) e sua esposa para o fato que o policial estava vestido de mulher.

Às vezes parecia que a piada estava entrando no campo de zoar dos travestis (‘não é engraçado ver um homem vestido de mulher?’), em vez de usar a situação para fazer piada com algum outro assunto. O que aconteceu muito em Antônio, com o policial interpretado por João Vicente de Castro lembrando de uma operação onde teve que se passar como travesti, o que não me pareceu piada sobre travestis, mas sim uma piada sobre como até os policiais tem desejos e uma vida secreta, igual aos suspeitos na festa de Gonzalez.

O Porta dos Fundos sempre conseguiu fazer um humor bem amplo, mas que nunca entrava no ambiente do estereotipo, aquele tanto visto em programas de humor popular como Zorra Total e A Praça e Nossa. O grupo até mostra uma tendência a quebrar tais estigmas com seus esquetes, e O Grande Gonzalez continua a seguir essas tendências. Mas algumas bandeiras vermelhas foram levantadas durante Antônio, pequenos problemas que não impedem os trinta minutos de serem divertidos, bem feitos e bem dirigidos, mas que podem se tornar problemões no futuro.

O que você achou do terceiro episódio de O Grande Gonzalez? Deixa sua opinião aqui e comente!

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