O outro lado daquela cena de Game of Thrones

Entenda por que aquela cena de Game of Thrones chocou tantas pessoas.

Game of Thrones

Quatro dias após a exibição do episódio Unbowed, Unbent, Unbroken de Game of Thrones, a discussão sobre a cena final continua fervorosa. De um lado, há quem defenda a natureza polêmica da série. Do outro, temos o grupo de pessoas que encaram a cena como desnecessária tanto em aspectos narrativos quanto sociais.

Antes de começarmos a dissecar os motivos pelos quais a cena não deveria existir, leve em consideração que uma reclamação contrária à sua não pode ser reduzida a um simples “mi mi mi”. Esteja aberto a ouvir argumentos sobre questões delicadas na sociedade, principalmente quando se trata de objetificação da mulher e o tratamento que ela recebe.

Este texto, e aquele que nosso editor chefe do Box de Séries publicou recentemente, serve como uma forma de guiá-lo pelas duas linhas de pensamento desta discussão. Leia, pense a respeito e tire suas conclusões.

Na review que escrevi anteriormente, comentei brevemente sobre a cena e, tentando evitar um debate que fugiria do episódio e da série, preferi focar nos aspectos que prejudicam a narrativa da história de Sansa.

Como todos que acompanham já sabem, a personagem é uma das que mais sofreu abusos físicos e morais na série. Sua última cena na temporada anterior transportou sua narrativa para um momento de recuperação, fato que estamos vendo nos episódios recentes, mesmo havendo momentos em que a personagem conflita consigo mesma sobre ter ou não estômago para seguir adiante com seu plano.

Game of Thrones 5x03 – High Sparrow (2)

No episódio em questão, temos Sansa novamente se posicionando e tomando as rédeas da situação na cena em que recebe ajuda para tomar banho. Todo esse arco condiz com a proposta que a própria série desenvolveu para a personagem. Vê-la sendo estuprada trai justamente sua própria narrativa, pois a violência sofrida por ela é desnecessária e a retrocede, tornando-a novamente frágil e indefesa.

Além disso, essa é uma etapa de sua história já vivida nos tempos em que ela era prometida de Joffrey, o maior vilão da série, que fez um uso muito mais brando de violência física e sexual. Com Ramsay, Game of Thrones parece querer repetir o feito de criar um grande e odiado vilão, mas com metade da criatividade empregada.

Há uma teoria em narrativa chamada Jornada do Herói que explica melhor qual o posicionamento de Sansa na história que está sendo contada, e já é justificativa suficiente para demonstrar o quão inferior em qualidade técnica foi o trabalho do roteiro deste episódio. Indo mais além, há quem justifique que a cena servia para escalar o nível de maldade de Ramsay Bolton.

O argumento é falho porque o personagem passou a terceira temporada torturando Theon, também presente na cena. Além disso, sua participação na série incluía cenas em que usava mulheres como caça para seus cachorros. O personagem, então, já teve sua dose de violência de gênero e psicopatia muito bem demonstrada pela série, tornando desnecessária adição de violência sexual gráfica. A mensagem já estava clara.

Com a presença de Theon na cena, fica ainda mais explicito que a participação de Sansa nela diminui a personagem a uma mera ferramenta narrativa para reforçar o sofrimento sentido por Theon, que também recebeu tempo de tela suficiente para ter seu abuso físico e psicológico muito bem explicado.

E aí que chegamos na delicada questão da objetificação da mulher. Esta é a terceira vez que a série utiliza um estupro para contar uma história de uma personagem do sexo feminino. É a terceira vez, também, em que a cena se faz desnecessária e não é pelo simples fato delas não estarem presentes no material original.

Como bem sabemos, esta é uma temporada que distancia-se cada vez mais dos livros que a inspira. Grande parte da adaptação tem limpado os excessos da história de George Martin, e apresentar um trabalho que contraste com eles não categoriza a adaptação como boa ou ruim.

O que faz uma obra ser bem ou mal adaptada são os motivos pelos quais a história desenvolvida existe na adaptação. Usar o estupro para retratar a queda e a ascensão de uma personagem — principalmente quando de trata de uma repetição — está longe de ser classificado como um bom trabalho.

“Mas então Game of Thrones não pode retratar estupro?” Pode! Mas a série poderia fazer uso melhor disso ao colocá-los em contextos que não sejam o puro e raso valor do choque. Isso é um clichê, e clichês denotam preguiça por parte dos roteiristas. Com essas cenas, a série não diz absolutamente nada de novo ou relevante.

“A série é violenta por natureza, porque a cena de Sansa é polêmica?” Um texto do site Indiewire (em inglês) explica que a violência retratada na série está distante de experiências frequentes da nossa realidade. Enquanto isso, o abuso sexual de mulheres é algo que está diretamente ligado ao cotidiano delas.

É mais difícil de entender isso se você for homem, mas dedicando-se a ouvir justamente o que elas têm a dizer fica mais fácil compreender que nós homens estamos em uma situação diferente da delas e, por isso, uma cena que retrata um estupro em qualquer época da história da humanidade possui o mesmo impacto para quem corre o risco de sofrer um.

Dizer que uma luta de espadas pode ser relacionada a um assalto com facas exige interpretação por parte do espectador, enquanto a violência sexual retratada na série já está diretamente inserida no nosso contexto. Se você usou esse argumento, você optou por relativizar o estupro como algo inferior e menos grave, mesmo o contexto mostrando que não. Esta é uma falácia chamada de falsa simetria.

Além disso, se o mote de uma série é ser violenta, essa constante necessidade de chocar continuará crescendo. A medida em que formos nos anestesiando com uma forma repetida de violência, outras aparecerão. Imagine então, se alguma produção resolve chocar ao mostrar uma versão gráfica de um abuso infantil. Se sua tendência for a de violência e a de chocar, então estaria tudo bem, já que esta é a proposta da obra? Apenas pelo fato de algo ser caracterizado de certa maneira não o exime de críticas por ser insensível.

“A série também toca em outras questões sociais polêmicas e ninguém fala nada”. E então a culpa da falta de organização dos outros grupos sociais é de quem está criticando a cena de estupro?

O aspecto mais importante que temos que prestar atenção nesta discussão é que, apesar de estarmos falando sobre uma série e personagens fruto da imaginação de vários autores (George Martin e os roteiristas da série: David Benioff e D. B. Weiss), nós ainda estamos falando de um trabalho de pessoas que escrevem e criam personagem que consumimos para nos entreter e impactar.

De forma indireta, ainda estamos falando sobre pessoas, portanto, a forma como você fala sobre personagens fictícios está diretamente relacionada com a forma como você fala sobre pessoas reais. O que temos aqui é uma oportunidade de aprendermos a absorver experiências diferentes da nossa e olhar outros mundos e contextos que não sejam apenas o nosso.

Simplificar o problema de uma cena de abuso sexual como liberdade artística é dizer que esses problemas são menos graves dependendo do contexto, mas não é justamente assim que os violadores justificam seus atos?

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