O que podemos aprender da Idade Média em GoT?

GoT_Personagens

Que Game Of Thrones é baseado na Idade Média, já estamos carecas de saber. São claras as evidências, a começar pelos trajes. Mas o que de fato tem de histórico na série, que é também de fantasia.

A série em si é baseada na Guerra das Duas Rosas, que num contexto geral demarcou os limites da Era Medieval. De uma forma mais ampliada, a disputa entra na gama de conflitos que redesenhou o esquema político da Europa.

Olhando especificamente para a Idade Média, algumas características da trama de Game Of Thrones são bem latentes. A primeira delas é quase que fundamental: a descentralização do poder. Embora tenha um rei sentado no Trono de Ferro, cada senhor tem poder e autonomia para legislar em sua terra. E junto a isso, temos outro fator medieval que é a relação de suserania e vassalagem, que se baseia na troca de favores entre os senhores e o rei, ou entre senhores e cavaleiros. Para o suserano, era obrigação prover ao vassalo dominações, e em troca, cedia tropas para a segurança do senhor.

No campo da vida cotidiana, Game Of Thrones oferece uma vasta gama de aparências da Idade Média para o espectador. O tratamento dos filhos bastardos, a posição da mulher na sociedade, as práticas de coerção, o sexo e a oposição com o amor, entre outras. De fato, Jon Snow não teria uma vida fácil, mas certamente um dos pedidos de Ned Stark seria que Catilyn cuidasse BEM de seu filho bastardo. Era comum essas crianças entrarem nos testamentos. Porém, em algumas regiões de tradição mais germânica, o destino dos filhos de relações extraconjugais estava na mão de seu pai, e muita das vezes eram rejeitados, ou dado para as avós ou tias cuidarem deles.

Jaime Cersei Game Of Thrones

Depois da morte, o sexo é uma ação frequente nos contos de George R. R. Martin, e a série não o deixa de fora do roteiro. E se nos assustamos com cenas de estupro, na Idade Média isso era frequente. Antes de mais nada, para uma sociedade religiosa onde a Bíblia era fundamento para tudo, o sexo tinha o papel principal de procriação. Mas cerca de 30% das mulheres já casavam grávidas, ou seja, o ato sexual era também uma forma de vivenciar o casamento. A nudez era algo comum, e o desejo contra ela levantava a suspeita de que a pessoa poderia ter algum de defeito corporal. Segundo o sociólogo Nobert Elias, a vergonha em relação ao corpo só se institucionalizou com o crescimento do individualismo, na Era Moderna.

Os três irmãos Lannister — Cersei, Jaime e Tyrion — são protótipos típicos da mentalidade medieval. O incesto, embora tido como pecaminoso pela Igreja medieval, era uma prática comum. Não existia noção de privacidade, e toda a família dormia numa mesma cama e relações sexuais aconteciam entre primos e irmãos. Além disso, casa-se com membros da família garantia a perpetuação dos bens. Para o pervertido anão Tyrion, os bordeis eram instituições públicas. Alguns pensadores como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, viam a prostituição como um dos menores problemas da moral cotidiana, sendo este um pecado que só deve ser julgado por Deus por se tratar da intimidade humana. Segundo Agostinho, “se proibirem a prostituição, o mundo será convulsionado pela luxúria”.

Por fim, a religião também é um dos pontos altos na trama dos Sete Reinos. Na série, a religiosidade não é tão atenuante quanto no livro, mas há duas linhas principais de culto: a Fé dos Sete — religião oficial — e o culto dos Deuses Antigos. A Europa Medieval herdou o Cristianismo dos romanos, mas com a romanização / germanização, algumas ramificações foram criadas. Era comum a heresias — religiões que se baseavam na crença em Jesus Cristo, mas não acreditavam nos dogmas da Igreja — e o paganismo — cultos rurais de pessoas que não conheciam a fé cristã. A condenação era a fogueira (Melisandre curtiu isso).

Dragão GoT

O imaginário medieval era recheado de figuras fantásticas, como os dragões de Daenerys. Os Bestiários pertenciam à bibliografia medieval, e alimentava a crença na mitologia natural. Nesses livros, além da definição de cada animal, planta ou pedra, também falavam da relação deles com a religião e qual era a significância para os homens.

Game Of Thrones é muito além de uma canção. As referências medievais na série da HBO são diversas, e toda fantasia de Westeros — e da mente assassina de George R. R. Martin — consegue contemplar tramas políticos e abordagem de costumes.

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