OITNB 2×05 — Low Self Esteem City

Para mim o que é mais perturbador é esse lugar ser igualzinho à minha antiga escola. Mesma construção de blocos de cimento, teto baixo, luz fluorescente opressiva. Será que é intencional? Será que faz parte da punição? Se for, parabéns para o governo, porque é genial.” — FELDMAN, Neri.

Nós, brasileiros, estamos mais que acostumados a ver em nossas novelas assuntos ‘educativos’ serem abordados frente ao grande público, em tentativas nem sempre eficazes de conscientização. Na maioria das novelas a intenção é usar a personagem que sofre o problema em questão como exemplo, para que o público veja, da forma mais chocante possível, como lidar com diversas mazelas sociais que permeiam o nosso dia-a-dia mas nem sempre encaramos como se fosse um problema nosso.

Dos cinco episódios que acompanhei, quatro, pelo menos, trazem temas sociais fortes para serem discutidos mas sem propor necessariamente uma discussão. Em Orange is the New Black, os tabus são apresentados sem apelação ou soluções imediatas. São expostos como parte do dia-a-dia das pessoas que os sofrem e não como anormalidades que só atingem quem tem ou é diretamente ligado ao problema, e aí está um dos grandes acertos da série. Os problemas dos outros podem, sim, virar problemas nossos uma hora ou outra e só quando sentimos na pele é que realmente entendemos o tamanho de determinadas adversidades.

A adversidade em questão é a agressão doméstica sofrida por Gloria, uma das personagens mais fortes de Litchfield, sabiamente colocada em uma situação de extrema fragilidade e impotência emocional em que jamais esperaríamos vê-la. O episódio de Gloria pode não ser o mais eletrizante da temporada, mas é um dos mais surpreendentes, sem dúvidas.

OITNB2X05

Low Self Esteem City (Presas Fáceis, na tradução) começa com um problema de vazamento no banheiro das latinas. Impossibilitadas de usarem o seu vestiário, Gloria e cia vão ao Gueto, o banheiro das negras, furam fila e geram uma confusão que faz Vee ascender suas antenas e, novamente, colocar as garrinhas de fora. O que parece ser apenas uma rixa para ver quem vai usar o banheiro que não fede, se transforma na primeira batalha de uma guerra que está por vir, e a história de Gloria é usada como metáfora para demonstrar ao expectador motivos para a latina ser tão facilmente manipulada por Vee, que é talvez não seja mais esperta apenas que Red.

Ao mostrar como Gloria era extremamente esperta ao desviar o dinheiro dos vale-refeição, mas facilmente manipulável por Arturo, perdoando-o toda vez que era agredida, os roteiristas fazem um perfeito retrato de suas atitudes na prisão. Gloria é extremamente competente guiando a cozinha e protegendo suas garotas, mas é manipulada por Vee exatamente da mesma forma que Arturo a manipulava, com lágrimas falsas e pedidos de desculpas. Já Vee mostra-se uma incrível estrategista e só me resta imaginar o que ela está aprontando, mas pela reação de Red, deve ser algo grande.

Outro ponto interessante que sempre é ressaltado na série, desde o início, é a divisão quase de colegial entre as presas. Grupos que não se misturam e estão sempre na luta para terem os melhores lugares, benefícios melhores, o posto mais alto na cadeia de comando, ou ser rainha do baile, entendam como quiserem. Achei genial a frase de Neri falando sobre como a cadeia lembra a escola fisicamente pois, ao analisar psicologicamente, aquilo é uma reprodução da high school norte americana em seu estado mais bruto. Genial.

O episódio conta, ainda, com outros arcos menores, sendo os mais interessantes a aposta de Nicky e Big Boo, e a doença de Vovó Chapman. A aposta de quem ‘pega’ mais detentas não é lá grande coisa, pra ser bem sincera. Mas Nicky indiretamente faz com que Fischer comece a indagar se não seria uma boa verificar as ligações que as presas fazem para casa, o que pode gerar algumas descobertas interessantes.

Já o arco de Piper traz, em seu início, uma brincadeira bizarra em que ela descobre que sua avó está morrendo. O desenvolvimento desse plot apresenta várias possibilidades, como a provável saída de Piper da prisão por alguns dias, seu reencontro com Larry e sua aproximação com Red. Muito lentamente as duas vão se conhecendo melhor e tendo diálogos incríveis, sendo de um desses diálogos uma das frases mais marcantes do episódio:

Todo problema é chato, até ele se tornar seu.” — REZNIKOV, Galina ‘Red’.

Sim, todo problema é chato até ele se tornar seu. Ter que cuidar de uma criança deficiente pode não ser problema seu. Só ver o seu bebê recém-nascido uma vez por mês pode não ser problema seu. Não conhecer o seu corpo direito pode não ser problema seu. Ser órfã e nunca ter sido adotada pode não ser problema seu. Sofrer violência doméstica pode não ser problema seu. Qualquer problema que exista no mundo pode não ser problema seu. E você só vai começar a se preocupar com esse tipo de problema quando o problema for seu.

Orange is the New Black pode não ter nenhuma intenção educativa em seus episódios. Mas garanto que me faz refletir muito mais do que várias outras coisas que tenho visto e, como não poderia deixar de ser, a série só faz melhorar. Quem não acompanha só tem a perder.

Rapidinhas:

– Vergonha alheia do Caputo tocando baixo, todo empolgado, naquela banda de bar. Mais vergonha alheia ainda do Healy chamando-o de CapuDog.

– Não gosto nadinha da Fig.

– Alguém aqui achou mesmo que a Nicky ia conseguir pegar a Fischer?

– Tirei meia estrela de interpretação por causa do Arturo. Fraco demais.

Até semana que vem, povo!

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