OITNB 3×01 — Mother’s Day

Episódio Mother’s Day mostra que terceira temporada veio resgatar o que mais amávamos na primeira.

Palhaça entretém o público.” — Big Boo

Confesso para vocês que comecei essa nova temporada de Orange is the new black com a cabeça pouco fresca, ou seja, lembrava pouca coisa do final da temporada 2. Os detalhes foram voltando aos poucos, conforme o episódio se desenrolava e eu lembrava das tramas de cada uma das detentas que deu as caras no episódio.

Se na temporada passada abrimos os trabalhos de forma meio estranha, sem a familiaridade de Lichtfield, nesse novo ano temos exatamente o oposto. O episódio de estreia é familiar, literal e figurativamente, trazendo um calorzinho gostoso pro coração e ajudando a matar a saudade.

Cada uma daquelas doidinhas que aprendemos a amar (ou odiar) aparece em Mother’s Day. Desde as menos abordadas como Ruiz e Angie, às figuronas da série, como a própria Piper, Red e, como todos esperavam, Alex.

It's the Great Blumpkin, Charlie Brown

O episódio se passa durante a preparação das presas e dos funcionários de Litchfield para o Dia das Mães e durante o dia em si. Acompanhamos as histórias das moças com suas mães e de algumas com seus filhos, e os flashbacks trazem informações interessantes sobre as personagens abordadas.

Ficamos sabendo, por exemplo, que 90% das meninas são filhas de mães que não podem ser consideradas estruturadas e que isso se aplica a alguns funcionários do presídio também.

A beleza do episódio está na leveza com que o assunto é tratado. Ao mesmo tempo em que curtimos os preparativos para a visita dos filhos das detentas à prisão, acompanhamos os o drama pelo qual elas passam, ao não ter contato diário com as crianças/adolescentes.

Esse é um detalhe que uma série de presídio masculina, por exemplo, jamais conseguiria tratar de forma justa. Não digo que pais não sofram com a ausência dos filhos, mas mães sofrem mais, a ligação é diferente, o laço é único. E, mesmo no caso de Sophia, que é mãe/pai, dá pra notar o elo especial. A cena em que ela aconselha seu filho sobre como lidar com garotas é, igualmente, divertida e reflexiva, afinal, ensinamos nossos meninos a serem “machos-alfas”, mas e as meninas afetadas por essa macheza toda, como ficam? Foi uma sacada interessantíssima.

Mother’s Day traz ainda boas (mas não totalmente corretas) piadas desde seu início, como a mãe de Pennsatucky enchendo a menina de Mountain Dew para ela ficar elétrica e gerar um bônus em sua pensão, Angie achando que Nicky não sai da lavanderia por estar apaixonada por ela e, eu não seria eu se não citasse, a referência magnífica de Taystee a Harry Potter:

Mexa com coisas do mal e você vai acabar como Cedrico Diggory” — JEFFERSON, Tasha (“Taystee”)

Não é um episódio focado em apenas uma personagem, mas mostra um pouquinho de cada uma e trouxe o que mais gosto em cada uma delas: a sensibilidade de Poussey, a maluquice doce da Crazy Eyes, o fanatismo insano da Pennsatucky, e diversas cenas memoráveis, desde a brincadeira de “O Mestre Mandou de Jones” à conversa doida da Morello, tentando convencer Sophia de que precisava estar bonita no dia das mães porque seus quatro filhos (imaginários) viriam visitá-la. É Orange is the new black em sua melhor forma.

Mas, mesmo com o tom de comédia, as três cenas que considerei mais marcantes no episódio foram dramáticas. Na primeira, temos Crazy Eyes querendo ir para o lado de fora, encontrar as crianças que estão lá brincando. Ela leva uma pipa que, refletindo sua personalidade totalmente, também tem olhinhos malucos. É de cortar o coração o seu olhar ao ser informada por Healy de que ela não pode sair para brincar com as crianças e Uso Adubo faz, mais uma vez, por merecer o Emmy que levou pra casa.

Destaco, também, a dor de Ruiz ao saber que seu marido não trará mais sua filhinha para vê-la. Uma cena tocante que é brutalmente cortada por uma trilha sonora alegre que vem com a clara intenção de quebrar o clichê, mas não tira o peso da atuação de Jessica Pimentel. Perfeita.

Por fim, a cena que resume a mensagem do episódio: conversa sobre aborto que rola entre Big Boo e Pennsatucky, que está velando seus 6 fetos abortados — todos com nomes iniciados pela letra “b”. Boo falou algo duro mas real: Tucky fez mais por suas crianças abortando-as do que as trazendo ao mundo. O episódio é um retrato disso, atestando que mães instáveis geram filhos instáveis e isso é um ciclo. Será que, se a mãe de Nicky desse atenção para a menininha que lhe fez café da manhã no dia das mães, ela cresceria e se tornaria uma viciada? É algo a se refletir e é difícil não cair no lugar comum ao falar de um assunto desses. Por esse motivo, considero inteligentíssima a maneira que o exemplo de Poussey foi tratado, mostrando que nem sempre a culpa é dos pais e que não dá pra generalizar nada.

OITNB marca vários pontos ao fazer um episódio tão leve e que suscita reflexões tão profundas, pois a vida é assim. Às vezes a gente acha que entendeu algo e, quando vai ver, não é nada daquilo. Ou achamos que temos a resposta para todos os problemas do universo, mas, sinceramente, quem realmente tem essas respostas? Mães desestruturadas gerarão mesmo crianças desestruturadas? Quem sabe, não? É justo jogar a culpa pelos atos de alguém em seus pais? Também é uma questão difícil de ser respondida.

Um belo retorno para uma série que já conquistou um espaço bacana entre o público. Há algumas sugestões de plots, especialmente relacionados a Piper e Alex, Big Boo e seus esquemas de contrabando, e sempre dá pra esperar algo interessante vindo do lado da Red, mas esse episódio é apenas o começo. Nos resta aguardar e ver como as coisas vão evoluir mas esse início foi muito, muito bom.

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