Os dragões salvos por Jorge

Olhando para o céu eu sou capaz de ver (salve Jorge!) a lua! Ai, como essa cançãozinha e a abertura são interessantes! Talvez a melhor coisa da novela Salve Jorge, que está em sua reta final. Resgata aí a abertura da novela pro povo ir escutando a musiquinha enquanto lê a coluna.

Veja bem, eu amo a Glória Perez. Estava lá quando ela conduziu Barriga de Aluguel (coração, diz pra mim…); sofri com ela e todo o drama na época de De corpo e alma (wishing ooooooooooooooooon staaaaaaaaar…); vibrei horrores com O clone (sobre as nossas cabeças o sol…). Mas Salve Jorge é um pé no saco. Literalmente.

A desconfiança com qualquer obra surge quando seu autor precisa recorrer ao twitter para explicar os furos no roteiro da novela e ainda contar com uma boa dose de credulidade e paciência de seus telespectadores para acreditar. Ou ainda quando atores na mesma trama são levados ao Domingão do Faustão para exaltar sua criadora. Ou ainda quando a mesma criadora precisa fazer uma participação via telefone (com ligação ruim, só pra constar) e dar mais explicações. Desconfiem, meu povo!

Pergunto-me até quando a autora irá insistir na fórmula: cultura exótica + suburbanos versus elite + assuntos polêmicos do momento + inserir vários arcos narrativos e muito assunto. Sério. Isso já deu tudo o que tinha que dar. Os ciganos, os muçulmanos, os hindus, os americanos, agora os turcos. O que mais virá? Os esquimós? Os tutsis? Os incas venusianos? No começo foi legal. Depois ficou a sensação de dejà vu. Mas agora basta! Chega! Não dá mais pra segurar… Explode Coração.

Quem mais aguenta tantas expressões idiomáticas incorporadas à língua portuguesa como se fossem nossas? É tanto inshalá, tanto gule gule, tanto baguan kelie, que a gente até se perde. Isso sem falar nas milhões de gírias que toda novela de Glória Perez traz. É uma espécie de cota que a novelista estabelece: Stop Salgadinho, arrastar o sári pelo mercado, queimar no mármore de inferno. Será que precisamos mesmo de mais bordões para serem usados à exaustão?

E ainda dentro da barreira do idioma, vocês nunca ficaram perturbados em como a língua portuguesa é falada com tanta fluência em todos esses países visitados pela novela? Gente, o povo do Marrocos/Turquia/Índia/Estados Unidos fala português como se tivessem nascido no Brasil. Eu sei, eu sei. Ficaria estranho uma novela com legendas. E ninguém desejaria que a Giovanna Antonelli/Juliana Paes/Deborah Secco/Nanda Costa aprendessem idiomas tão complicados em tão pouco tempo! Se as novelas passadas no Nordeste/em Minas/no interior/na Itália tem todo aquele sotaque típico da novela, por que as de Glória Perez não apresentam isso?

E essa coisa de a Turquia é logo ali? O povo vai e volta para lá como se a Turquia ficasse perto de Magé, em relação ao Rio de Janeiro. Haja passagem de avião e tempo de viagem! Eu queria ser um turista dentro de novelas da Glória. Viajar seria tão mais prático e rápido. E, em um país tão vasto, parece que em terras turcas só existem Istambul e a Capadócia. A impressão que se tem é que a Capadócia é praticamente um quintal de Istambul. E olha que, geograficamente falando, são mais de mil quilômetros de saudade! A Geografia agradece.

Nanda Costa está pau a pau com Deborah Secco na categoria de mocinha mais inexpressiva. Momento algum consegui comprar o drama de Morena e nem acreditar em sua verdade. Assim como acontecia com a Sol e sua vontade de ir para os Estados Unidos.

E o mocinho, gente? Glorinha sempre erra a mão quando o assunto é o mocinho. Suas protagonistas dificilmente terminam com o par romântico idealizado no princípio. Téo é o peão Tião da vez. Sem graça, sem sal, sem objetivo. Ah, vale constar que o cigano Igor, do fantástico Ricardo Macchi, foi um dos mocinhos da titia Glória. Acho que isso já diz tudo, não é? Rodrigo Lombardi apenas perpetua uma longa tradição.

Mas nada consegue ser mais constrangedor que a vilã. Claudia Raia, minha linda. A gente te adora desde a época da Tancinha e do sucesso em Ti Ti Ti. Mas você não aprendeu a lição com a Ângela de Torre de Babel? Vilãs não são a sua cara, meu anjo. E é justamente nisso que você insiste. Fazer vilã não é caprichar no carão, não é fazer voz de travesti, não é usar pó compacto translúcido e batom vermelho. É mais, muito mais.

Claudia Raia Letal

Nos últimos meses, a audiência até que deu uma decolada impulsionada pelas situações de perigo apresentadas e pela dizimação de quase metade do elenco pela quadrilha (aliás, como tem personagem essa novela, meu povo!). E aqui surge um novo problema que me incomoda muito em dramaturgia: as coincidências a favor do vilão e a burrice dos mocinhos. As mortes da Jéssica e da Raquel tão aí para não me deixar mentir. Ou então os furos envolvendo os ataques contra a delegada Helô. A novela virou uma trama policial sofrível, com pessoas andando portando injeções letais na bolsa como se fosse um batom (com exceção da Totia Meireles, porque ela foi promovida de “melhor amiga suburbana da mocinha” para “vilã genérica e espécie de amiga da vilã principal”).

totia_e_claudia

Que venha a próxima atração comandada por Walcyr Carrasco, porque, sinceramente, Jorge cansou!

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