Os geniais paralelos de Animais Fantásticos

Harry Potter e os Bichos, aqui conhecido como Animais Fantásticos e Onde Habitam, estreou finalmente e trouxe aquele maravilhoso gostinho de retornar ao mundo mágico criado por J K Rowling. A expansão do universo bruxo, que até então detalhava o que se passava em solo europeu, foi gigante e saborosíssima.

Uma das melhores coisas em acompanhar os livros de Harry Potter era sem dúvida traçar paralelos entre o mundo mágico e a história do mundo real. O que não falta são referências ao holocausto nos sete volumes que deram fama à autora.

E é claro que isso aconteceu com à chegada ao solo americano. Abaixo listamos alguns dos mais relevantes paralelos. Alguns não se resumem à cultura e história americana, mas ressaltam a genialidade de J K em sua primeira incursão como roteirista e merecem destaque.

Se não assistiu ao filme, cuidado pois o texto contém spoilers.

Grupos intolerantes e Salemianos

Nem precisamos ir à história antiga dos EUA para traçar esse paralelo. Nossos Bolsonaros, Felicianos e Malafayas são belos exemplos de líderes que pregam a intolerância, tal qual Mary Lou Barebone (Samantha Morton). Mas se você quiser, podemos relembrar o KKK. O mais relevante é que acabamos de sair de uma controversa eleição na qual o ódio e a intolerância foram ferramentas de campanha.

FB não poderia ser mais atual ao tocar nesta ferida, mostrando grupos organizados para disseminar ideologias de ódio através de propagada, impactando jovens. O mais cruel: são recrutadas crianças de rua, que praticam panfletagem em troca de um prato de comida.

De onde vem a intolerância aos bruxo? Do mesmo lugar que vem a intolerância aos gays, muçulmanos e tantas outras minorias. Do medo do desconhecido.

Um "Obscurus" ataca uma estação de metrô em Nova Iorque. Terrorismo?

Terrorismo e Obscuros

Gellert Grindelwald (Johnny Depp), o famoso Bruxo que busca a supremacia bruxa, é indicado como o grande vilão desta nova leva de filmes. Ele chega à Nova Iorque e recruta jovens justamente desses grupos intolerantes, com a autoestima quebrada, vítimas da sociedade.

Mas não quaisquer jovens. Jovens com ódio suficiente para controlar o que no filme é chamado de Obscuros: um parasita poderoso que destrói tudo a seu redor, inclusive seu portador. Qualquer referência a homens-bomba não é mera coincidência. É óbvio que o terrorismo seria um paralelo da autora.

Só para completar: onde acontece o mais emblemático ataque de um obscurus? Numa estação de metrô!

Autorização para Porte de Armas e Licença para porte de varinhas

Antes de lançar o novo filme, J K lançou uma série de textos em seu site, o Pottermore. Eles detalham a América do Norte mágica em sua cultura, lei e história. Um dos textos narra os mais importantes fatos sobre o Congresso Mágico, chamado de MACUSA. Nele há um departamento para controlar o porte de varinhas, algo que não há no Ministério da Magia, no Reino Unido. Esse é um paralelo à licença para o porte de armas, outro tema sensível para os americanos. Quer arma mais poderosa do que uma varinha?

A autora até comenta a facilidade dos nativos mágicos em realizar magia sem o uso da varinha, uma invenção dos mágicos da Europa. Com a chegada das varinhas, junto com os imigrantes, o poder dos mágicos nativos aumenta. Se parar para pensar, os nativos americanos já tinham suas armas. Mas elas perdiam feio se comparadas ao poder bélico europeu, que dizimou milhões de indígenas.

Graves nem pensa duas vezes antes de sentenciar Newt e Tina à morte.

Pena de Morte

Quem mais ficou chocado com a naturalidade com a qual Tina (Katherine Waterston) e Newt Scamander (Eddie Redmayne) foram condenados à morte por Percival Graves (Colin Farrell)? Esta é mais uma diferença entre a política bruxa nos EUA e no Reino Unido.

O tema é polêmico e discutido até hoje. Como sabemos, a pena de morte existe em alguns estados americanos. Tanto no filme quanto na vida real o condenado é levado a um estado de torpor/anestesia e sentenciado à morte. No caso do longa, em uma cadeira metálica que simboliza a cadeira elétrica.

Segregação e Lei Rappaport

Aqui o paralelo é com o apartheid, que até soa como Rappaport. Este é o sobrenome de uma Presidente do MACUSA que implementou uma lei que estabelece a segregação total entre bruxos e não bruxos. Retrógrado, né? O próprio Newt diz isso no longa e agente concorda.

Sei que o apartheid aconteceu na África do Sul, mas a Lei Rappaport é claramente uma referência à segregação que há nos EUA, resultado dos anos de escravidão. Não há muitos anos, negros não podiam se sentar em ônibus havendo um branco em pé. E até estudavam em escolas diferentes. Tudo isso para evitar conflitos que poderiam surgir das interações entre negros e brancos. Conflitos similares ao que J K narra em um dos textos do Pottermore.

Picquery garantindo mais um mandato com o direito de virar copos!

Lei Seca

O filme se passa no final da década de 1920. Você percebeu que a folia corre solta num dos bares que nossos novos bruxos favoritos visitam? Talvez você tenha se perguntado: “Mas ué, não era a época da Lei Seca?”. E você está correto. Era sim!

Porém, como JK conta neste texto, a vida bruxa era tão dura que a própria Presidenta Picquery diz não negociar o direito a uma birita. Saúde!!!

Imprensa e o controle da mídia

Nesse clima de divisão entre bruxos e não-majs, a imprensa acaba sendo uma arma poderosa. Ela ocupa um papel tão forte no filme que o longa já começa com manchetes de jornais. Esse é um meio usado para plantar o terror nos bruxos, que vivem o medo de serem descobertos.

Em FB vemos ainda uma crítica a um empresário da mídia que faz campanha para transformar seu filho Senador em Presidente. Não muito diferente do que acontece até os dias de hoje. Boa, JK. 😀

Como sofre esse Credence… :/

Homofobia e o Sofrimento de Credence

Credence Barebone (Ezra Miller) é o personagem mais emblemático do filme. Ele possui diversas camadas e cada uma delas pode traçar um paralelo diferente. É um personagem profundo e rico.

Sabemos que J K é engajada em diversos temas e já advogou sobre homossexualidade. Tanto que o bruxo mais poderoso de todos os tempos, Dumbledore, é gay. E parece que a sofrência do personagem Credence é mais uma investida da autora na discussão sobre a homofobia.

Veja bem: o jovem não entende o motivo de ser diferentão. É punido por sua mãe, que não está de acordo com seu jeito “anormal”. Ele mesmo não se aceita e busca em Grindelwald a promessa de solução (seria a cura?). Credence sofre em reprimir sua própria natureza, o que gera um força destruidora (obscuros). Se não bastasse tudo isso, o cara é manipulado para propagar que bruxos (gente como ele) são anomalias.

Sabe aquela história de que homofóbico é gay reprimido? Uma das camadas de Credence parece ser um paralelo a isso. Não estou alegando que o personagem é gay. É apenas um paralelo possível.

O autismo de Newt

Para encerrar, vamos falar do protagonista. Esse paralelo é construção não apenas de J K, mas do brilhante ator Ed Redmayne. Já percebeu que Newt não encara as pessoas nos olhos e tem pouco contato físico com elas?

Isso não acontece quando o jovem está em com seus animais, quando é extremamente afetivo e cuidadoso. Além do mais, ele tem a possibilidade de viver em seu próprio mundo, dentro de sua maleta maravilhosa.

Notou algum paralelo que pode ser acrescentado a este texto? Então comente. ?

Sobre o Autor

Avatar

BOXPOP

Site especializado em cultura pop, fundado em agosto de 2007. Confira nossos podcasts, vídeos no youtube e posts em redes sociais. Interessados em contribuir como autor no site podem entrar em contato: contato@boxpop.com.br

Deixe um comentário

clique para comentar

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Lidio Mateus, o brazilian singer da internet, comenta todos os bafos e segredos de sua carreira.

Tem série nova na HBO e os bastidores dela foram recheados de TRETAS. A gente conta todas neste vídeo.

Esse é o filme que vai ganhar o Oscar de filme estrangeiro. Neste vídeo comentamos Parasite. Assista!

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!

OUÇA ACABEI DE LER