Penny Dreadful: o medo de cada um

Você crê na existência de um semi-mundo? Um meio mundo entre o que sabemos e o que tememos?” — IVES,Vanessa

Do que você tem MEDO, caro leitor? Ao longo dos anos, o medo foi pesquisado, a fim de ser explicado em bases científicas. Atualmente, ele é colocado numa escala que vai do que chamamos de ansiedade, em que surge um leve estado de alerta, até o pavor, estado no qual todas as respostas fisiopsicológicas estão alteradas.

Penny Dreadful

O medo, dentre os chamados desejos deturpados, é o mais aceito. Ou seja, tem gente que gosta do medo por puro e simples prazer. Nas séries, é cada vez mais comum vermos as que exploram esse sentimento, desde Suspiction e Alfred Hitchcock Presents, nos primórdios da TV, às atuais American Horror Story e The Strain.

Já no século XIX, o medo era difundido de uma outra maneira, através de livretos que em muito lembram os nossos cordéis. Cada um deles tinha histórias do tipo “torce e escorre sangue” e custavam alguns centavos, daí o nome Penny Dreadful, Centavo Tenebroso.

Na Inglaterra Vitoriana existia um território fértil para essas histórias, uma vez que muitos mitos do terror nasceram ali, como Bran Stoker e Mary Shelley (escritores de Drácula e Frankstein). Nessa mesma era surgiu um dos primeiros Serial Killers: “Jack, o estripador”.

Durante o século XIX, os ingleses empregaram grandes incursões ao continente africano e trouxeram de lá inúmeras referências ao sobrenatural, desde os fascinantes artefatos do Egito Antigo, a rituais de tribos dos rincões mais esquecidos.

Penny Dreadful, a série da Showtime, utiliza desse cenário para nos levar a um dos melhores shows de terror dos últimos anos. A história se passa em Londres envolta num mundo tão sombrio quanto a própria cidade, cheia de seus clubes, teatros decadentes e novos heróis.

Penny Dreadful - Episode 1.03 - Resurrection

Acompanhamos Sir Malcolm Murray (Timothy Dalton), um explorador na busca por sua filha Mina Murray que, segundo ele, foi sequestrada por uma criatura sobrenatural. Nessa busca, ele conta com a ajuda de Vanessa Ives (Eva Green), uma Médium que, além de amiga de Mina, busca provar seu valor a si mesma. Sir Malcolm conta também com a ajuda de Sembene (Danny Sapani), um criado que veio da África e que tem experiência em combate e com o sobrenatural.

Aos poucos, o grupo se dá conta de que eles precisam de ajuda para lidar com esses eventos paranormais, assim, eles encontram Ethan Chandler (Josh Hartnett), um atirador de circo americano, e o convencem a auxiliá-los na sua missão. A primeira missão deles juntos é a invasão de um ninho de Vampiros, e dá uma noção para todos eles de que essa busca será mais difícil do que eles imaginam. Durante a autópsia de um dos vampiros eles acabam por descobrir uma relação entre os seres e o Egito.

Dr. Victor Frankstein (Harry Treadaway) é fascinado pela possibilidade de criar vida. E nessa busca ele tenta trazer dos mortos o seu primeiro homem, o seu “Adão”, um homem perfeito, e não uma fera. Essa busca se torna cada vez mais complexa e a cada novo fracasso ele se torna mais frustrado. Mas as descobertas do grupo de Sir. Malcolm acabam por lhe dar maiores esperanças.

Durante uma festa, Vanessa conhece o enigmático Dorian Grey (Reeve Carney), um homem lindo, mas que vive envolto numa aura de melancolia, o chamado Spleen. Dorian tem um magnetismo sexual que o torna irresistível, mas aos poucos ele deixa esse ar sexual e assume, ou ao menos caminha, para algo mais romântico, que nem ele mesmo entende.

PENNY DREADFUL

Sobre as atuações, Penny Dreadful não poderia ser mais feliz Eva Green, uma das melhores atrizes dos últimos tempos, consegue manter uma linha tênue entre a racionalidade e a paranormalidade, entre o terno e o aterrorizante. E a evolução dela ao longo da primeira temporada nos mantém colados à TV querendo de fato entender como ela se encaixa na história. Eva protagoniza a cena mais aterrorizante da TV dos últimos anos. Outro acerto da atriz acaba sendo como ela faz a personagem lidar consigo mesma, uma vez que em inúmeros momentos ela mesma não se entende.

Timothy Dalton prova que ser 007 não é para qualquer um, mas Sir Malcolm acaba sendo mais complexo. Envolto num mundo que muitos não entendem e enfrentar esse desconhecido acaba sendo um desafio como ato

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r com a possibilidade de cair num estereótipo de um homem sem medo. Mas isso não acontece, e vemos em inúmeros momentos que o medo está presente nele, e às vezes isso acaba sendo muito sútil, mas presente.

Josh Hartnett pode até se arrepender de não ter feito o Batman do Nolan, mas estar em Penny Dreadful acaba sendo uma bom afago. Ethan Chandler consegue ser um herói, ter um amor — Brona (Billie Piper) — e lidar com medos diferentes ao longo de oito episódios, que vão desde o da morte inevitável, ao medo de si mesmo e de seus medos no armário. Esse conjunto torna em alguns momentos o personagem num crédulo e corajoso, num homem amedrontado de uma maneira não muito comum, aquele que tenta vencer os medos mesmo não acreditando no que vê.

Em pontos opostos estão dois personagens que têm o seu medo bem definido, certo e personificado: Dr. Victor e Dorian. Assim como suas contra-partes da literatura enfrentam os mesmo medos, em Penny Dreadful esse elemento os torna mais reais. E acaba sendo complicado, porque são medos que, apesar de ficcionais, todos temos. Treadaway acaba sendo não só amedrontado, mas consumido pelo medo de não ser bom o bastante. E como ele deixa isso claro em todas as fotos do Victor, vemos sempre um olhar cansado de quase vencido, que chega a dar dó.

Já para Carney, o medo de deixar de ser o que é e como é nesse momento fica quase como um desenho da melancolia que ele imprime em Dorian, como se o mundo e as pessoas ao redor não fossem o bastante, que o momento atual não basta, que ele tem de alguma forma ser guardado, aproveitado, vivido. E ele é o único que reconhece no seu medo uma fonte de prazer.

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Danny Sapani, ora por sua própria caracterização, ou mesmo pelas origens de seu personagem, pode conviver com essa atmosfera de medo, mas não deixa se influenciar, ou se levar por eles. Ele acaba sendo um ponto de apoio muito importante para Sir. Malcolm, que de certa forma é destemido, mas tem seus momentos de fraqueza. Sembene consegue ter uma presença mesmo sem ter muitas falas ao longo da temporada.

Se a trama e o elenco ainda não te convenceram, a série conta com um trunfo na manga ela é uma produção de ninguém menos que Sam Mandes e John Logan de Skyfall. Logan também assina o roteiro da trama, e por seus trabalhos anteriores ele já foi indicado 3 vezes ao Oscar, além de ganhar um Globo de Ouro por Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street e um BAFTA por Skyfall.

A produção conta com uma fotografia primorosa que consegue dar uma ar decadente a Londres, de modo a deixar mais realista e ao mesmo tempo mais tenebrosa a cidade. Os cenários e figurinos são muito fiéis e contam com pequenas adaptações, em especial nos figurinos de Sembene, destacando que de certa forma ele não pertence àquele mundo. A produção da festa onde acontece uma sessão espírita e o clube de egiptologia são carregados de elementos detalhados que ora são realistas por si só ou então revelam ou guardam segredos maiores sobre os caminhos da trama.

Seja lá qual for seu medo, você poderá encontrá-lo em Penny Dreadful. E quem sabe encarando-o você não descobre que ele é algo tão pequeno quando comparado com esse rol apresentado. Se você gosta de Terror e ficou frustrado com American Horror Story nos últimos anos, a série do Showtime é uma das que Você Precisa Assistir, e o mais rápido possível! A primeira temporada foi ao ar no ano passado (e você pode conferir as reviews aqui no Box) e a segunda temporada estreia dia 3 de maio nos EUA e nas terras brasileiras chega no dia 8 às 23:00 pela HBO.

Veja o teaser da primeira temporada e dê início aos seus pesadelos:

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