Precisamos falar sobre Credence em Crimes de Grindelwald

Será que o personagem será atingido por um raio heteronormatizador na sequência de Animais Fantásticos?

Podem me chamar de problematizador. Dizer que vi coisa onde não tem. Mas vou fazer textão mesmo para defender minha interpretação de Credence Barebone (Ezra Miller) na franquia Animais Fantásticos.

Afinal, uma das melhores partes de conhecer o universo mágico de JK Rowling é caçar as analogias que a autora cria entre o mundo bruxo e o mundo trouxa. E os paralelos de Animais Fantásticos E Onde Habitam mostram que o repertório da agora roteirista e produtora Rowling é realmente vasto. Você pode enxergar referências ao porte de armas, à pena de morte e ao apartheid.

Eu, enquanto homem gay, encontrei diversos paralelos relativos à homossexualidade.

Principalmente em Credence, um dos personagens mais profundos aos quais fomos apresentados no primeiro filme da franquia Animais Fantásticos. Como todos sabemos, serão cinco filmes e as polêmicas em torno da produção não são poucas. Alguns fãs do chamado Wizarding World estão realmente decepcionados.

Primeiro com o posicionamento do diretor do filme, David Yates, e também de JK Rowling com a participação de Jhonny Depp no papel do vilão Grindelwald – ele terá destaque na continuação, que se chama Crimes de Grindelwald e isso faz total sentido, já que ele bate na esposa. Todos esperamos que ele seja preso!

A segunda decepção veio com um depoimento de David Yates sobre a sexualidade de Dumbledore. Ela não será explorada neste filme. Ou seja, o ex-namorado gay perseguirá o ex-namorado gay, mas a relação homossexual que viveram não influenciará esta perseguição de maneira alguma. Ah, por favor!!!

Mas vamos voltar a falar de Credence, o jovem que carrega todo poder de um obscurus e vive em meio a um grupo de intolerantes que persegue justamente o que ele é. E neste momento, vamos fazer uma analogia que não remeta diretamente ao obscurus.

Feche os olhos e imagine…

Imagine que você se vê diferente da maioria das pessoas que o cercam. Que você tem impulsos e tendências que são contrárias ao que sua família e os mais próximos indicam como sendo o correto ou “padrão”. Com certeza você tentaria corrigir este “desvio”, para não magoar estas pessoas, criando interiormente uma noção do que é certo e errado – e automaticamente se encaixando no “errado”.

Você agrada a “sociedade”, mas vive em constante conflito. Vez ou outra, sua natureza aflora.

Imagine que sua família parece enxergar algumas dessas características que fogem do “normal” e começam a indicar de forma mais enfática o que eles vêem em você que não os agrada. Sem muita informação e referência, é bem possível que você tente “enterrar” estas tendências, o que a curto prazo seria uma solução, mas a longo prazo poderá ser um grande problema, te levando à depressão por exemplo.

Depois de um tempo, o que você enterrou pode não aflorar a todo instante. Mas vez por outra te deixará aflito, por puro instinto. Afinal, você é isso!

E você começa a enxergar pessoas que parecem ser como você era, e que vivem felizes com essas características que você não pode aceitar em você mesmo. Você tem dois caminhos a partir daí: sublimar e tratar essas pessoas com indiferença ou intolerância, ou refletir e se reprogramar.

Sublimar, ou refletir?

Essa alegoria serve para praticamente qualquer aflição de uma minoria. Desde a não aceitação do próprio corpo até questões como a homossexualidade, entre tantas outras. A questão é que nesta alegoria, impreterivelmente o sujeito se voltará contra ele mesmo, ou aquilo que represente sua angústia.

Agora vamos colocar o Credence dentro de tudo isso.

Ele cresceu em meio a um grupo de intolerantes, que perseguiam bruxos. Credence sabia que carregava poderes especiais, como o dos tais bruxos que sua “família” odiava e perseguia. Credence passou a odiar justamente o que o tornava tão especial.

E assim surgiu seu obscurus, uma força mágica das trevas que é parasitária, desenvolvida por um bruxo ou bruxa que tem sua magia suprimida de forma física ou psicológica. Credence, enquanto hospedeiro, é o que chamamos de obscurial.

Mas o obscurus de Credence não é qualquer um. No universo criado por JK Rowling, esse tipo de magia parasitária é volátil e dificilmente controlada. Tem poder destrutivo e geralmente aniquila seu hospedeiro enquanto ele ainda é uma criança. Porém, Credence tem 16 anos e parece ter conseguido controlar seu obscurus e o usa para ferir outras pessoas.

É isso mesmo que você leu. Credence oprimiu sua natureza de forma violenta e aprendeu a usá-lo de forma destrutiva. Credence chega até a matar alguém que o confronta por sua natureza, por seu jeito de ser.

Lembra que falei de homofobia e problemas de imagem? Uma pessoa gorda, que nasceu e cresceu em meio a outras pessoas que consideram o fato de ser gordo uma doença ou algo feio, simplesmente não entende como outros gordos podem ser felizes.

Há uma teoria (que não aceito em sua totalidade) que aponta a causa da homofobia como sendo a repulsa por impulsos naturais próprios. Ou seja, que o homofóbico seria um gay que não aceita suas tendências homossexuais. Acredito que alguns homofóbicos se encaixem nesse padrão. Porém, dizer que todo homofóbico é um gay enrustido coloca toda a “culpa” dessa violência na própria população gay. Nem tudo é hipocrisia. Na maioria dos casos, é livre-arbítrio mesmo.

Neste sentido, Credence e seu obscurus formam um paralelo perfeito para a homossexualidade.

O jovem não entende o motivo de ser diferente. É punido por sua mãe adotiva, que não está de acordo com seu jeito “anormal”. Foi usado durante anos, desde sua mais tenra infância, para fazer propaganda contra aquilo que ele é. Imagine a confusão na cabeça desse garoto.

É de se esperar que ele suprima sua homossexualidade seu poder bruxo. Mas a dúvida, o conflito e a falta de informação o leva a meios obtusos. E assim ele busca em Grindelwald a promessa de solução ou escape para suas questões. Afinal, Credence vê Grindelwald usando abertamente aqueles mesmos poderes que o fazem sofrer tanto.

A possível heteronormatização de Credence

O universo mágico de Harry Potter não tem nenhum personagem assumidamente homossexual. JK Rowling já disse em seu Twitter que Hogwarts possui um clube gay e que Dumbledore é homossexual. David Yates disse recentemente que ele e Grindelwald foram apaixonados um pelo outro.

Mas a verdade é que nada disso foi descrito em nenhum dos sete livros da saga canônica, nem no primeiro roteiro da franquia Animais Fantásticos.

Como assim, mulher?!
Como assim, mulher?!

Nos oito filmes a câmera buscou, encontrou e enfatizou momentos especiais em relações heteronormativas. Todos vimos a troca de afeto entre Molly e Sr. Wesley, Gina e Harry, Ron e Hermione, entre tantos outros.

Mas só houve um momento do universo mágico nos cinemas em que a câmera buscou, encontrou e enfatizou uma reação que pode ser interpretada como homossexual:

Que jeito estranho de tocar um garoto menor de idade dentro de um beco
Que jeito mais estranho de tocar um garoto menor de idade dentro de um beco.

O mais próximo que chegamos disso é a relação entre Credence e Grindelwald. E aqui, não falo de paralelos, mas de interpretação do que se assiste. O personagem tem todo um comportamento muito similar a alguns jovens gays confusos e dentro do armário.

Credence se encontra com o vilão em becos escuros, em guetos. E Grindelwald o toca de maneira diferente, manipulando as necessidades que encontra no garoto, quase que de maneira nojenta – pois é isso que Grindelwald melhor faz. Foi isso que ele fez com Dumbledore no passado. E Grindelwald é o vilão. Por ser vilão ele está permitido a fazer isso. É dessa maneira que somos manipulados a odiá-lo. E assim a história funciona.

A questão é que na imagem de divulgação feita milimetricamente para comunicar como serão os personagens em Crimes de Grindelwald, vemos um Credence notoriamente diferente. Com um olhar menos frágil e mais masculinizado, com um possível par romântico aninhado sobre ele.

Credence está preparado para aquela pergunta que aterroriza todo jovem gay:

E as namoradinha?!?!?!

O que aconteceu com o gay-Credence?
O que aconteceu com o gay-Credence?

Após tantas polêmicas envolvendo a homossexualidade no segundo filme da franquia, será que Credence também foi “heteronormatizado”? Só saberemos no dia 16 de novembro, quando estreia nos cinemas.

Eu só espero que não.

Sobre o Autor

Caio Fochetto

Fundador do site BOXPOP, profissional de mídia e comunicação com experiência em TV aberta, TV paga, portal web e rádio. Potterhead sonserino com muito orgulho e apaixonado por cultura pop.

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