Precisamos falar sobre Walcyr

Walcyr Carrasco foi uma das minhas grandes paixões de menino. Ele era o autor de Xica da Silva. Minha admiração por Walcyr aumentou ainda mais quando soube que ele mantinha duas tramas no ar: além da já citada Xica da Silva, na Manchete, Fascinação, no SBT (por questões contratuais, a narrativa da Manchete foi escrita sob o pseudônimo de Adamo Angel).

Logo depois vieram os arrebatadores sucessos de O cravo e a rosa (que está aí raiando linda nas tardes do Vale a pena ver de novo), Chocolate com pimenta e Alma gêmea. Quem assiste à atual novela das nove me pergunta: Xico, o Walcyr sofreu de esclerose múltipla e se esqueceu de como escrever uma boa novela?

É complicado escrever com interrupções!

Pequerruchos, a resposta é sim e não. Vamos entender. Uma coisa é escrever uma novela em 1997 para a terceira emissora em termos de audiência e sem muita pressão. Outra coisa é escrever uma novela das seis para a emissora líder, sem o compromisso de carregar o drama, e brincar com a leveza do horário. E outra coisa, completamente diferente, é escrever para o horário nobre.

Ele já tinha uma experiência traumática na faixa das nove. Quem aí se lembra de quando ele foi convocado às pressas para substituir Benedito Ruy Barbosa em Esperança? Para quem não sabe, a novela foi a responsável pela desistência da Ana Paula Arósio de interpretar e pelo início da doença de Reynaldo Gianecchinni (a gente sabe que Ana fez Ciranda de Pedra depois e que um dente quebrado não tem nada a ver com células mortas, mas é mais emocionante pensar assim). Resgata a cena aí pros novinhos.

A Globo tá ficando sem gente pra escrever no horário nobre (Gilberto Braga pode nunca mais escrever novelas depois de sua doença, Glória Perez errou rude na criação de sua última história, a próxima pode ser a última trama de Manoel Carlos, Aguinaldo Silva não é mais sinônimo de sucesso absoluto, Sílvio de Abreu se saiu muito bem no horário das sete, restando apenas João Emanuel Carneiro). A emissora precisava investir em alguém e Walcyr pareceu ser a escolha mais acertada.

Cheguei, honey! Walcyr na área!

Porém, quando deslocado de sua zona de conforto, o autor costuma derrapar feio. Se7e pecados e Caras e bocas estão aí para provar. E a coisa fica pior quando Walcyr chupinha tramas consagradas no exterior. Meu anjo, uma coisa era plagiar histórias quando o brasileiro não tinha acesso a elas. Hoje, com internet, todo mundo conhece tudo o que passa lá fora. E ainda mais quando o assunto é Grey’s Anatomy, com uma base sólida de fãs há mais de oito anos. É dar um tiro no próprio pé.

Walcyr, você não sabia que as pessoas assistem a Grey’s Anatomy?

E existe uma coisa bem diferente entre plágio e inspiração. A coluna #GONGSHOW já serviu de inspiração para diversos outros colunistas (que fazem a linha Yann Martel, dizendo que pegaram um texto ruim e transformaram em algo melhor). Amor à vida tem plots inteirinhos copiados ao pé da letra do seriado criado por Shonda Rhimes. O médico que treme as mãos ao fazer uma cirurgia e precisa da ajudar de uma auxiliar, a enfermeira que quer perder a virgindade, o casal que transa (o corretor insiste em trocar essa palavra por relação sexual) após se conhecer em um bar e descobre que são colegas de trabalho no hospital e, mais recentemente, a moça que descobre que o médico com quem sai é casado. A cara de pau é tamanha que Walcyr alega que foi apenas inspiração. Senhor Walcyr, inspiração passa muito longe disso.

Isso sem contar as cópias descaradas de elementos de Por amor, Brothers & Sisters, Laços de família (sem direito a atriz careca que deu piti e não poder usar a música da Lara Fabian. Volta Dickman) e até do filme O Predador (ou você acha que o visual de Juliano Cazarré é algo novo?). E ainda teremos elementos místicos com o surgimento de Gasparzinho, o fantasminha camarada.

O texto é um dos mais fracos que já acompanhei na vida. Os diálogos são desprezíveis e dignos de pena, além daquele didatismo insuportável. Tudo precisa ser explicado nos mínimos detalhes. Quando estou deitado no sofá da minha casa, na companhia da minha mãe, sinto uma vergonha profunda pelos atores, que precisam dar vida àquelas palavras tão mal escritas. É um texto raso, medíocre, ruim, indigno.

Um pouco de Manoel Carlos, uma pitada de Shonda Rhimes, uma colher de Pedrador e... voilà!

Amor à vida começou com um ritmo alucinante, lembrando os melhores momentos de Avenida Brasil. Foi fácil enganar o espectador. No primeiro capítulo da novela, nas primeiras semanas, a trama empolgou, só por vários motivos não foi tudo aquilo que a gente pensava. Soou como trailer de filme ruim, sabe? Aquele que durante um minuto e meio é uma obra-prima, mas na hora brincar de roteirista e separar os plots fica péssimo?

Mas agora é tão ruim mais tão ruim que nem as cenas do Caio Castro semi, semi, seminu me fazem ver a novela! (palavras de Lady Dai) A esperança de um bom texto esvaiu-se antes do término dos trinta capítulos iniciais, quando o autor tem total liberdade de escrever, sem pressão de audiência. Se Walcyr foi incapaz de segurar o nível nesse início, o que será do restante da novela?

Só Caio Castro salva!

Mas eu deveria ter confiado no meu sexto sentido. Novela que tem Daniel cantando o tema de abertura não pode ser boa (aliás, me pergunto que raios de motivos têm a Globo para continuar insistindo no cantor. Só ela acredita nele). A abertura é assinada pelo norte-americano Ryan Woodward, conhecido em Hollywood por ter sido animador de filmes como Branca de Neve e o Caçador, Os Vingadores, Homem de Ferro 2, Homem Aranha 2 e 3, entre outros. De que adianta aquela belezura de animação se tem o Daniel cagando com a voz dele? Antes tivessem deixado o tio Hans Donner fazer. Sairia mais barato.

E o que dizer do grande vilão Félix? Muitos se apressaram em dizer que ele é o irmão gêmeo da Carminha. Cuidado, gente! É preciso muito mais que contar as contas do rosário, salgar a santa ceia e jogar bebês recém-nascidos em caçambas para ser igualado à vilã mais marcante da dramaturgia recente. Mateus Solano tem competência de sobra, mas o texto não ajuda. No fim, soa caricato e risível. Apenas.

Carminha, te prepara que agora é a hora do show da poderosa aqui!

E até quando vão insistir em Paloma de Oliveira como protagonista, meu povo (isso será assunto para uma coluna futura)?. E Malvino Salvador? A única função dele em uma trama é ser gostoso. E só. E olha que ele mal tem tirado a camisa em cena. Quer ser levado a sério como ator (sic). Não exijam mais do moço.

O único sopro de salvação vinha de Tatá Werneck. Mas ficar diante de 50 minutos de um texto ruim só para ser contemplado com poucos minutos de participação de Valdirene é uma carga pesada demais para carregar.

Nem a inteligência pura suporta tanta carga, palhaço!

Amor à Vida (que eu sempre chamo de Viver a vida) tem salvação. Não será mais inesquecível. Todavia, não precisa estar no limbo do esquecimento eterno. Walcyr, que a força esteja com você.

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