Pretty Little Liars sob uma nova perspectiva

Desde a produção da irrepreensível The Sopranos, as séries norte-americanas passaram por uma adequação em suas produções. A partir daquele momento, a série criada por David Chase passaria a ser o parâmetro das subsequentes. Por mais ingrata que soe a ideia em um primeiro momento, a teledramaturgia acabou seguindo seu curso natural e se adequando à linguagem proposta. Novos bons seriados foram surgindo. Roma, Mad Men, Homeland… A lista é infindável e, a cada season, as emissoras se empenham em entregar bons produtos ao público. E foi em um desses esforços louváveis que surgiu a superlativa Pretty Little Liars, da ABC Family.

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À primeira vista, saber que se trata de uma série adolescente, com protagonistas joviais, baseada em romances juvenis e ainda produzida pela ABC Family, gera certa desconfiança. Mas elas se esvaem logo que se assiste ao episódio piloto. E é justamente nesse episódio que se oculta toda a genialidade de Marlene King, uma das mais injustiçadas criadoras americanas.

Contudo, apenas afirmar a singularidade de Pretty Little Liars não é suficiente para captar a dimensão de seu escopo. Para tal, seguindo a linha greimasiana, a coluna apresenta uma análise das estruturas fundamentais, narrativas e discursivas da série. A percepção do aspecto lírico-narrativo na obra é buscada pelo estudo das apropriações poéticas do texto, valendo da teoria semântica de Greimas. Tais abordagens apontam para um processo de reconstrução do universo adolescente feito pela narrativa em busca da essência e do entendimento de uma das personagens desaparecida e, por que não dizer, da própria vida.

De acordo com Algirdas Juien Greimas, no livro Semiótica das paixões: dos estados de coisas aos estados de alma (1993), o estudo semiótico tem como objetivo principal fazer que o sentido do texto se evidencie aos olhos do leitor. Segundo o teórico, a narratividade de um texto dá-se em três níveis de complexidade: a estrutura fundamental, a narrativa e a discursiva.

Sobre a sintaxe fundamental da série, a oposição semântica que está em evidência em Pretty Little Liars é /mentira/ vs. /verdade/, seguida das oposições /moral/ vs. /imoral/, /amor/ vs. /indiferença/, /vida/ vs. /morte/. As protagonistas Aria, Hanna, Spencer e Emily assumem claramente o papel de vítimas de um sistema cujas engrenagens ficam cada vez mais pesadas que, com a suposta morte de Alison, amiga de todas, sofrem para aceitar a realidade.

Esse combate entre idealização e aceitação da realidade permeará toda a obra. O quarteto simplesmente vê-se sem reação quando as mensagens ameaçadoras começam a povoar seus aparelhos celulares. Os segredos ocultos nas regiões mais abissais de psique e do comportamento de cada uma poderão vir à tona e isso é o estopim da problemática da série.

A diferenciação entre narração e discurso assemelha-se na distinção entre fábula e trama (ou intriga), de maneira que a primeira aproxima-se da narração por referenciar o conjunto dos acontecimentos comunicados pelo texto narrativo, representados nas suas relações cronológicas e causais e a segunda liga-se por designar a representação dos mesmos acontecimentos segundo determinados processos de construção estética.

Uma estrutura narrativa mínima acontece quando um estado inicial sofre uma transformação e atinge um estado final. Para que essa relação de transitividade ocorra são necessários um actante sujeito e um actante objeto, funções como a junção e a transformação e entre duas formas canônicas de enunciados elementares, a saber, enunciado do estado (junção) e enunciado de fazer (transformação).

A presença de Alison no grupo é pesada e aflitiva. Ao estarem em junção com ela, as meninas são subjugadas devido à temeridade de suas falhas sejam expostas. Quando as quatro protagonistas de Pretty Little Liars se veem libertas do pesado jugo de Alison, entram em disjunção com o objeto “Alison”. Este acontecimento é encarado como enunciado de fazer, no qual a ausência de Alison transforma a relação das quatro amigas. E mesmo quando as mensagens ameaçadoras iniciam seu papel, as amigas não entraram mais em conjunção com o objeto “Alison”. Desta maneira, o sujeito de estado encontra-se em privação, mesmo não apresentando índices de conscientização sobre isso.

No campo discursivo, faz-se preciso recorrer aos grandes cânones literários sobre a vingança, a manipulação, o segredo, a maldade da alma. Tal qual um Goethe moderno, Marlene King oferece às suas protagonistas o mesmo acordo mefistofélico dado a Fausto. Desta vez, a figura demoníaca é o onipresente –A. Como uma espada pendendo por um fio sobre suas cabeças, as quatro garotas personificam o próprio Dâmocles em sua ambição.

Tais verdades são corroboradas diante da renovação e de um spin-off do seriado. Tais renovações são oportunidades ainda maiores para elevar tal discussão. É preciso uma grandeza mental singular para alcançar a profundidade de Pretty Little Liars.

Obra incompreendida e maldita ante ao ranço acadêmico preponderante entre as parcelas ditas cultas, Pretty Little Liars é uma série à frente de seu tempo, que bebe de fontes clássicas para externalizar seu manifesto público contra a hipocrisia. Expõe, sem máscaras ou meias verdades, a inconsistência de uma sociedade pudica, como é a americana. Rosewood é o espaço mítico, o microcosmo, utilizado para discutir os sintomas de um império decadente, distópico. Sem sombra de dúvida, uma obra maiúscula e o epítome da definição do século XXI.

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