Proibido é uma obra intensa, envolvente e, sem dúvida, polêmica

Cheio de polêmica, Proibido, de Tabhita Suzuma, foi trazido para o Brasil através da Editora Valentina, e publicado no segundo semestre de 2014.

Você pode fechar os olhos para as coisas que não quer ver, mas não pode fechar o coração para as coisas que não quer sentir.” MAYA

Ela é doce, sensível e extremamente sofrida: tem dezesseis anos, mas a maturidade de uma mulher marcada pelas provações e privações da pobreza, o pulso forte e a têmpera de quem cria os irmãos menores como filhos há anos, e só uma pessoa conhece a mágoa e a abnegação que se escondem por trás de seus tristes olhos azuis.

Ele é brilhante, generoso e altamente responsável: tem dezessete anos, mas a fibra e o senso de dever de um pai de família, lutando contra tudo e contra todos para mantê-la unida, e só uma pessoa conhece a grandeza e a força de caráter que se escondem por trás daqueles intensos olhos verdes.

Eles são irmão e irmã.

Com extrema sutileza psicológica e sensibilidade poética, cenas de inesquecível beleza visual e diálogos de porte dramatúrgico, Suzuma tece uma tapeçaria visceralmente humana, fazendo pouco a pouco aflorar dos fios simples do cotidiano um assombroso mito eterno em toda a sua riqueza, mistério e profundidade.

Lochan é extremamente inteligente, sempre obtêm os maiores conceitos na escola e nunca deu problemas. Ele também tem um coração generoso e uma calma gigantesca para lidar com todos os problemas que surgem a sua frente. Só que ele não consegue se comunicar com as pessoas de fora da família muito bem. Ele pode fazer textos brilhantes, ele consegue gabaritar todas as fórmulas, ele pode fazer o jantar todas as noites e fazer com que as crianças comam os legumes. Mas falar com outras pessoas é algo terrivelmente difícil para ele. Ele tem crises de pânico, ele trava, e simplesmente não consegue aguentar toda a atenção em cima dele. Para alguém que passa a vida tentando se manter invisível, para não ter problemas, isso é compreensível. A única pessoa com quem ele pode conversar, com quem ele se sente bem e a única pessoa em que ele confia é Maya. Ela é seu porto seguro, ela é sua alma gêmea, ela é sua melhor amiga.

Maya é sensível e tenta fazer com que sua vida, tão sofrida desde tão nova, seja um pouco menos ruim. Ela tenta passar para os irmãos mais novos todo o amor que sente por eles, e tenta fazer com que a vida deles seja estável e normal — mesmo que isso seja quase impossível naquelas circunstâncias. Ela divide os afazeres com Lochan, dá atenção aos pequenos e tenta fazer com que Kit seja mais sociável e menos rebelde. Ao contrário de Lochan, ela não tem problemas em se comunicar com todos. Ela tem amigos — mesmo que não confie neles o bastante para compartilhar os detalhes de sua vida pessoal. Lochan é a única pessoa em quem ela realmente confia.

Os dois são irmãos, os mais velhos de uma família de cinco filhos, com uma mãe relapsa e alcoólatra. Para impedir que sua família seja despedaçada e separada pelo sistema legal, Lochan e Maya criam os irmãos como se fossem seus pais desde os 12 anos do garoto. Eles sempre foram melhores amigos e acabarem em um romance era quase inevitável.

Não há leis e nem limites para os sentimentos. A gente pode se amar tanto e tão profundamente quanto quisermos. Ninguém, Maya, ninguém poderá nunca tirar isso da gente.” LOCHAN

Não é difícil entender como os dois se apaixonaram. A situação na casa deles, a forma com a qual foram criados, o quanto eles tiveram que crescer em tão pouco tempo, como eles só tinham um ao outro para se apoiar. Como eles foram negligenciados e excluídos, como eles sentiam como se não fossem desejados ou amados. Como se não fossem bons o suficiente para o pai, como se fossem um peso morto para a mãe. Mas ao mesmo tempo, é tão difícil imaginar se eles se amaram por causa de tudo isso, ou apesar de tudo isso.

Você sempre foi meu melhor amigo, minha alma gêmea, e agora eu estou apaixonada por você também. Por que isso é um crime?” MAYA

Escrito em primeira pessoa, com protagonistas alternados — Maya e Lochan — temos contato com uma narração simples e informal, porém, bem empregada. Ouvi algumas pessoas falarem que a linguagem desse livro em inglês não era bem construída. Não tive a oportunidade de lê-lo em inglês, tão pouco sei se a tradutora a melhorou ao decodificar a obra, mas de uma coisa garanto: pelo menos em português, a narração estava em bom nível.

De início tive que admitir que essa ideia de incesto foi estranha para mim. Nunca consegui imaginar um romance com essa base de enredo, até porque, a sociedade nos inibe qualquer pensamento incestuoso. O próprio livro se mostra crítico em relação a isso. Em nenhum momento a expressão “incesto” foi utilizada para representar o que Maya e Lochan tinham, até porque a sociedade associa esse termo com a promiscuidade — algo inteiramente diferente do que se passava ali.

E então, conhecendo os sentimentos límpidos e extremamente inocentes dos nossos protagonistas, é quase impossível se manter com os conceitos impostos pela coletividade, pela lei ou pela própria religião. Sentir na pele, se ver dentro de uma situação como essa e não ter a oportunidade de escolher, é ter uma empatia imediata pelo dramático acontecimento; é compreender sem discutir, e absorver essa lição que mostra que amor é amor, e que o resto não importa.

Fiquei muito satisfeita também com as reflexões que Tabitha nos presenteia. Sobre nossos preconceitos, sobre nosso errado pensamento que para “ser feliz” só há uma receita, e todas as demais são erradas e devem ser extintas. A autora nos fez refletir muito sobre nosso egoísmo, de querermos definir como alguém deve viver, como deve agir, quem deve amar. Sem dúvidas, Proibido é um livro demasiadamente forte, muito dramático e impactante.

Todo mundo tem o direito de fazer o que quiser, de expressar seu amor como bem entender, sem medo de assédio, ostracismo, perseguição ou mesmo a lei.” LOCHAN.

A escrita de Tabitha Suzuma é inacreditavelmente rica, com uma narrativa fluída e profunda, bem diferente dos livros que estamos acostumados a encontrar nas prateleiras de lançamentos atuais. Por meio de descrições fiéis que fazem com que as cenas do livro passem como um filme na nossa mente, ela consegue passar ao leitor tudo que os personagens estão pensando, sentindo e o contexto em que eles estão em cada momento. Ela soube, com delicadeza e sensibilidade, escrever cada uma das linhas que fazem essa história ser maravilhosa, perturbadora e tocante do início ao fim. Daqueles livros que você ama, que você se desespera com o personagem, que você se alegra com ele e chora com ele.

Indico a leitura para todos que apreciam um romance intenso, uma história dramática que toca o leitor do começo ao fim; para que gosta de se emocionar e refletir e, ainda por cima, assimilar lições importantíssimas. Esse livro é para leitores que gostam de pôr seus defeitos e preconceitos em cheque, livrarem-se da alienação e do controle social e aprenderem sobre outros pontos de vista. É para quem gosta de se inovar.

proibido

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