RPDR All Stars 2×03 — HERstory Of The World

HERstory Of The World traz número musical com mulheres que fizeram história, enquanto a temporada luta para emplacar uma que seja genuína.

É hora de falarmos sobre as narrativas da segunda temporada de All Stars 2. Olhos menos atentos podem não perceber que a edição do programa tem articulado nossa percepção das competidoras. Não é novidade que o programa faça isso, afinal, é o jeito que a produção encontrar de nos aprofundarmos na personalidade de algumas competidoras.

Com All Stars, a condução se dá um pouco diferente. O fato de conhecermos a fundo as meninas por causa de suas participações em outras temporadas (e por acompanharmos cada uma delas via redes sociais e os trabalhos que elas produzem), manipular nossa percepção sobre elas não é exatamente uma tarefa simples, a menos que você apele para uma característica já explorada anteriormente.

A edição feita com Phi Phi O’hara é a que deixa isso mais evidente no programa, que a tem mostrado forçosamente como a vilã da temporada. O esforço tem um propósito: o programa quer conflito, o que não vem acontecendo mesmo com o novo formato de eliminação. O clima de amizade e panelinha é forte e persiste porque essas Drag Queens são colegas de trabalho no mundo fora do programa.

Acontece que as cenas utilizadas para retratar Phi Phi como vilã são fracas e não cumprem sua função se você parar para refletir sobre elas. Seu comentário para Roxxxy Andrews no episódio do Snatch Game era especificamente sobre o sotaque da personagem, mas o programa faz parecer que era sobre a escolha de interpretar Sophia Vergara no quadro.

É perceptível que Phi Phi usou do humor para comentar sobre o desempenho de Alyssa durante os ensaios do desafio principal de HERstory Of The World, e os comentários sobre a o barulho que Alyssa faz ao falar alto no workroom só soaram maldosos porque a trilha sonora estava lá para direcionar isto.

É quase como se o programa fizesse as vezes de The Big Bang Theory, soltando a trilha de risadas quando não há de fato uma piada, mas precisa te influenciar a rir. Só que na linguagem do programa, o combustível é o shade, e Phi Phi O’hara tem pago por isso injustamente.

E a ironia de toda essa situação é que o programa dedica uma parte do episódio para mostrar Phi Phi comentando sobre como ela quase desistiu de fazer drag por causa da hostilidade das pessoas.

Alaska aproveita a oportunidade e comenta especificamente sobre o comportamento de fãs, que a cada temporada tem se tornado cada vez mais problemático e, principalmente racista, mostrando que RuPaul’s Drag Race precisa de fãs melhores.

E talvez o problema do episódio seja que nada disto comentado até aqui faça parte da coluna vertebral do mesmo. O desafio principal tem boas intenções em montar um número musical focado em personagens históricas, onde o objetivo de cada uma das competidoras é roubar a cena durante o número. Alyssa se sai melhor graças a sua experiência com a dança. Roxxxy, apesar do figurino ruim, também apresenta bom desempenho no número.

Katya não vai mal, tem excelente dublagem, mas as críticas dos jurados parecem exagerar nos defeitos de sua apresentação, principalmente no que diz respeito à cauda do vestido. Seria impraticável mantê-lo, principalmente com a coreografia exigindo que as competidoras cruzassem uma as outras na passarela.

Já para o desfile, outro deslize. Com o tema Futuro do Drag, as competidoras deveriam imaginar como deviria ser a arte drag no futuro. Ao invés disso, os visuais na passarela mostravam o conceito drag futurista, pegando emprestado o conceito de futuro que a produção cultural tinha nos anos 70, e abusando da batida cor prateada.

Apesar disso, Detox foi a que mais se destacou na passarela por apresentar um visual que traz o conceito de androginia, mesmo que ele te lembre um pouco de robôs e androides. Pela segunda semana seguida, Detox mostra o quanto evoluiu visualmente, mesmo sendo uma drag de alto nível desde que pisou pela primeira vez no programa.

Alaska também traz uma interpretação mais próxima do tema, unindo cores fortes com unhas longas — que nos remete diretamente a uma de suas músicas e isso mostra o quanto Alaska soube trazer o tema para seu próprio drag.

Phi Phi O’Hara merece aqui uma menção porque seu visual na passarela mostra um pouco do seu trabalho como Drag Cosplayer. Além da riqueza de detalhes, é possível perceber o quanto ela evoluiu em técnica e como esse estilo de drag está mais alinhando com sua personalidade.

Alyssa e Detox dublam pelo seu legado no episódio e a impressão é que até o momento o elenco de All Star 2 não parece querer dar tudo de si. Assim como na dublagem entre Katya e Alaska, ambas as competidoras não pareciam se esforçar e de alguma forma a Alyssa se sai melhor porque até mesmo RuPaul deve achar que uma boa dublagem se faz com jump splits e death drops.

Alyssa tinha que escolher entre Katya e Ginger. A escolha de apenas duas competidoras para compor o bottom two revela as intenções do programa: eles queriam que sentíssemos medo pela eliminação de Katya. Alyssa quebra a promessa de seguir as críticas dos jurados e elimina Ginger da competição.

Nada sobre esta parte do episódio demonstra o mínimo esforço para parecer autêntico. Diferente do que os promos diziam, está mais fácil do que nunca manipular a competição. No episódio do Snatch Game fica claro o porquê da ida de Detox e Roxxxy para o Bottom Three quando Alaska sairia vencedora da disputa de dublagem.

A possibilidade de Alaska eliminar uma colega do antigo Rolaskatox era ínfima, tornando mais fácil a saída de Tatianna. Aqui temos a mesma situação. Alyssa elimina quem, na visão do programa, rende menos. E dada a torcida que Katya tinha na sétima temporada, eliminá-la só prejudicaria o programa.

A segunda temporada de RuPaul’s Drag Race All Stars trouxe de volta Drag Queens sensacionais que têm escrito novos capítulos em suas histórias sem a ajuda do programa para isso. Então, talvez, o programa deva começar a se abster de querer escrever uma história quando seus personagens dão conta do recado. É hora de RuPaul’s Drag Race voltar a elaborar desafios que realmente exijam de suas competidoras as habilidades que fizeram delas as estrelas que são hoje.

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