Sessão de Terapia 1×01 — Júlia

Foi como se eu estivesse no escuro. Até que conheci você, e… tudo ficou mais escuro ainda.” — Júlia

Sensibilidade profunda marcou o piloto de Sessão de Terapia. Foram 26 minutos ininterruptos em que cavamos, camada por camada, a alma de Júlia e, com isso, todos os sentimentos foram vistos com a mesma clareza que vimos o quão brilhante foi esse episódio.

Logo na primeira cena vemos a paciente do dia em prantos, mãos trêmulas, maquiagem borrada e cabelos bagunçados, e com isso enfrentamos o primeiro clichê da série: Theo, o terapeuta, oferecendo uma caixa de lenços para Júlia. Isso muito pareceu um ato de gentileza feito por um profissional, mas quando no fundo foi a forma que o lado humano de Theo achou para envolver o cansado corpo de Júlia em um abraço. Então ela diz que estava arrependida de estar ali, não se sentia preparada, e, por isso, ficou mais de 4 horas na porta da casa de Theo criando coragem para entrar, isso tudo porque na noite anterior havia brigado com o seu namorado de forma devastadora, o que acarretou uma série de consequências emocionais madrugada adentro.

A fotografia é simples na superfície, mas requer uma análise detalhada do espectador, pois em Sessão de Terapia são as coisas pequenas que falam mais alto. O ar denso da sala é sufocante e quando misturado com a melancolia dos fortes diálogos passa a ser insuportável, e tudo isso devidamente equilibrado com uma firme trilha sonora. Perder o fôlego é palavra de ordem aqui!

Júlia conta sem medo e com a intenção de chocar Théo (onde experimentou o fracasso) sobre um erro que ela quase cometeu, que foi o clássico “dar para o primeiro que passar”, mas deixando bem claro e com um tom de libertação que aquilo seria por ela mesma, e que desistiu por consideração ao namorado, André. Nesse momento, Maria Fernanda Cândido teve a oportunidade de mostrar a grande atriz que é conseguiu com louvor. Apesar de frases com expressões obscenas, sua personagem sempre parecia permanecer no balanço perfeito de controle sobre sua insegurança, e sustentou com classe suas expressões faciais sofridas. Cada palavra que com a boca soava tranquila, com os olhos soava como desespero. Ela realmente mergulhou no papel e está com todas as chances de consagrar Júlia como seu melhor trabalho. Sabemos que ela é capaz e agora é esperar para ver onde isso vai dar!

Em certo momento, quando vemos Júlia se arrumando no banheiro, fica claro que ela quer parecer menos arrasada para Theo, parecer mais no domínio de sua condição, o que só é confirmado minutos após: ela conta que desde a sua primeira sessão com ele, se viu apaixonada, e Theo profissionalmente não reage, mas suas sobrancelhas levantadas e seus olhos revirados deixam claro que um vendaval de emoções invadiu sua mente que de muita informação já tinha sido preenchida nesta sessão. Então conseguimos entender que na verdade, não, ela não desistiu de se entregar ao pecado da carne por seu namorado, mas sim por Theo, para quem antes de esgotar o tempo descreveu suas profundas fantasias com o terapeuta.

Destaque para a ótima direção de Selton Mello, que dirigiu cada sussurro com maestria, pois em tratamento tudo importa: o número de piscadas, o tom da voz, o movimento dos ombros. A câmera é precisa e é extremamente eficiente! A sensação é de estar na sala ao lado, olhando tudo pela fechadura da porta. Deixou o voyeurismo puro e viciante. A única coisa que senti falta foi de uma mudança de atitude da Júlia antes de confessar e da Júlia depois de confessar, pois essa transição seria um divisor de águas. Júlia permaneceu a mesma rainha do pseudo auto-controle antes e depois de abrir o coração, e isso precisa mudar com urgência, afinal, pessoas tendem a mudar depois de desabafar profundos segredos

Para as próximas segundas-feiras, dias das sessões de Júlia, podemos esperar uma imensa dificuldade na relação dos dois, afinal, ela mesma disse que não consegue mais imaginar um mundo satisfatório sem ele. O principal a tema ser discutido semana que vem é a falta de força de Júlia para parar de enganar André e mastigar um pouco mais a aceitação dela enquanto sua vulnerabilidade amorosa, tratando dos motivos pelos quais ela está tão encantada pela última pessoa no mundo que poderia se encantar. Sendo ela uma assídua paciente, isso também afetará as sextas-feiras de Theo, pois podemos esperar que sua supervisora, Dora, fique preocupada com a situação e que o cuidado de ambos sobre este difícil momento seja dobrado.

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