Sessão de Terapia 1×15 — Dora

Às vezes um mijo é apenas um mijo.” — Theo.

Nunca gostei das palavras que derivam desse verbo deliberadamente estranho, mas, nessa última sexta-feira, Theo fez com que eu passasse a amar. A mesma palavra me levou a amar Dora mesmo a odiando, a voltar a amar nosso querido terapeuta, e, finalmente, ter a certeza absoluta de que Sessão de Terapia está de volta aos trilhos.

Às noites de sexta são de extrema importância, já que durante todo o resto dos dias temos que desvendar os olhares de Theo, as mãos, a boca trêmula, e aqui não: nas sextas-feiras ele grita, em voz baixa, tudo o que está sentindo e passando. Algumas vezes é tanta informação que é difícil de suportar, mas é como comer. Mesmo que de vez em quando você pareça estar cheio, na verdade está sempre querendo mais.

Dora se mostrou o tempo todo dura sobre a acusação de ser a culpada sobre a precipitada ação de Theo de começar a falar sobre o encaminhamento de Júlia para outro terapeuta. Dora é aquele tipo de piranha que oferece a granada e, enquanto a pessoa está tirando o pino, corre, para depois voltar e dizer que não fez nada. Mas ela também comete seus acertinhos com o quase colega, se ele só de desse ao trabalho de olhar. Dora, por exemplo, toma por concebido que Júlia já sabe que Theo está louco por ela (fato confirmado pelo mesmo na sessão), e está tentando fazer com que ele se entregue, na lentidão mortal insuportável de sempre. Jogando aqueles charminhos, elogiando e dizendo que ele é tudo que ele precisa ouvir.

É necessário para Theo aceitar que ele está na beira de um penhasco lavado com sabão e manteiga. Se ele der um passo fora do balanço vai cair feio e não vai conseguir voltar mais. Júlia já está fazendo isso com ele sabendo só do mínimo, pensem se ela descobre que o casamento dele é um fracasso e que ele precisa urgentemente se sentir amado? Ele está carente, mas simplesmente não pode se entregar à Júlia por questões éticas (morais, pessoais e profissionais).

Agora se antes falar de Dora nos levava ao Theo, Clarice e Júlia, agora, mais uma alma se junta nesse inconveniente sexo grupal: Breno. Theo se sente traído. Júlia era a única esperança dele de que talvez fosse receber uma injeção de auto estima, e ela simplesmente resolveu chateá-lo estando com Breno, um ser humano que não é só seu paciente, mas também, ao seu ver, desprezível. Ele também se sente culpado, afinal, poderia estar sorrindo se naturalmente estivesse com Júlia desde o momento em que ele se viu tentado para isso, mas o óbvio medo de cometer o erro que seu pai cometeu também o impede. Relembrando: O pai de Theo abandonou tudo para fugir com uma paciente. E agora? Com Clarice curtindo Roma com amante? E ele aqui, no Brasil de Deus Meu, com Júlia? E sozinho? Nada mais o está segurando. Claro, se você desconsiderar ele mesmo.

Tudo nesse episódio sempre funciona, pois o roteiro não dá rodeios. É tudo genial em sua simplicidade pela falta de técnica e esforço aparente. As coisas fluem mais naturalmente. Não podemos dizer o mesmo da performance de Selma Egrei. A energia ríspida que ela deveria passar de vez em quando parecia forçada e menos exigente com os diálogos, focando apenas em movimentos calmos para momentos que necessitavam de um pouco mais de ação e vice versa. Para tudo tem uma primeira vez. A trilha sonora volta a ficar boa nesse episódio. Que bom! De vez em quando eles erram tão feio. Zécarlos Machado esteve em seu melhor momento nessa semana, pois conseguiu se destacar sem parecer muito superior à nenhum dos outros atores no sofá. Vê-lo em ação é um privilégio!

Theo não está pronto para lidar com seus sentimentos que surgiram a partir de situações das quais não teve controle. Já tomou remédios, já se atrasou, já foi e voltou e foi de novo no banheiro. Dora está, apesar de conseguir nos chatear simultaneamente, ajudando. Ela tenta, mesmo fracassando, relutar contra seus dogmas pessoais para ajudar Theo, mas enquanto ele não estiver de cabeça aberta para admitir que não tem forças para continuar vivendo essa vida de cachorro, não irá seguir em frente. Aliás, isso é o que ele prega sempre aos seus pacientes, não é? Iluminar a sala escura dos nossos pensamentos. Quando ele vai se tocar que uma lâmpada queimada precisa ser trocada se você tiver vontade de enxergar?

Ainda falando sobre luminárias, alguns interruptores precisam ser apertados: Dora precisa parar de vez de atacar Theo com certos naipes, começando com esse de revirar o passado para trazer à tona coisas desnecessárias e de que Theo ainda não está preparado para jorrar, como o seu pai. Oito anos não são oito minutos, e Dora precisa entender que junto com o tempo, as leis mudam. Ela precisa reconquistar a confiança do aprendiz e aos poucos desenvolver esse tema tão profundo e cortante. Sinto que Theo está cada vez mais se desfazendo da pele para nos mostrar o que está por baixo de todas aquelas rugas de expressão, que com muitos motivos, têm aumentado nas últimas semanas. Ele tá se deixando correr solto pelo consultório de Dora e deixando também sua vida se tornar um projeto de livro aberto. Theo está no caminho certo. Sempre esteve. Mas quem garante que Júlia, Dora, Clarice ou Breno não irão do nada simplesmente empurrá-lo para fora da estrada? Ninguém. O jeito é esperar. Ainda tem muita ponte para passar debaixo dessa água.

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