Six Feet Under, sétima arte na TV

O que você consegue consertar na vida que lhe cerca?

Para abrir a coluna de Box Fechado, onde faremos com periodicidade semanal algumas reviews de séries encerradas, decidi dar o start comentando minha série favorita (e de muitos outros também), Six Feet Under.

A série aborda o dia-a-dia de uma família normal de tão esquisita. Pode parecer bizarro dizer isso, mas que família é normal? Bom, os Fishers decididamente não são e isso é ressaltado quando somos apresentados a sua funerária, que também serve de lar. Uma versão dramática e moderna de A Família Addams? Isso rende piadas no próprio roteiro da série, mas não é o caso. E você vai entender ao assistir e reparar que não há nada mais monstruoso em cada personagem do que sua própria humanidade. O pior: vai se reconhecer!

O mote familiar é bem encaminhado logo no piloto, que é primoroso. Sempre rola aquele papo de que seriado bom tem episódio piloto ruim. Esqueça esta regra quando assistir SFU. Esta é a excessão da regra.

O casal Brenda e Nate.

É vespera de natal e Nate (Filho, Peter Krause) está voltando para casa para celebrar com a família. No avião ele conhece Brenda (Rachel Griffiths), uma mulher intrigante que lhe envolve por sua lascividade e volatilidade. Em casa Ruth (Frances Conroy), a mãe de família, está preparando o banquete enquanto David (Michael C. Hall), o filho do meio, está envolvido nas atividades da funerária (afinal, para a morte feriado não existe) junto com Rico (Freddy Rodriguez), contratado da empresa.

A filha caçula, Claire (Lauren Ambrose), está desconectada da família e perdida nos dias da adolescência. Ela sente que não há espaço para ela em casa e, na escola, o ramo profissional de sua família lhe rende chacotas nada legais. Em fase de experimentação a garota se mostra interessada não só nos caras de seu colégio, mas também nas drogas que eles usam. Talvez a pergunta que não saia de sua cabeça é: “Por que não sou normal?” Ah, a série é da HBO e isso fica claro nas primeiras cenas com a personagem — sem esquecer Nate dando uma com Brenda num depósito do aeroporto.

Nathaniel Fisher Pai (brilhantemente interpretado por Richard Jenkins) está curtindo uma breve crise de meia idade, aproveitando os embalos do novo carro comprado por sua empresa. E é por conta disso que ele se acidenta, morrendo quando o tal veículo que dirigia a toda velocidade se choca contra um ônibus.

A morte une a família de forma que nunca antes vimos na TV e, mesmo após sua partida, o patriarca consegue se manter ainda mais próximo e presente na vida de cada um de seus parentes, o que pode ser até um incômodo para alguns deles.

Nathaniel, o pai presente mesmo após a morte.

O retorno do filho pródigo não é o único tema abordado na série. Apesar de Peter Krause ser considerado o ator principal da série, todos os outros têm ótimo material para trabalhar. Michal C. Hall, hoje muito bem contemplado em Dexter, encarna o homossexual enrustido que aos poucos vai se liberando dos próprios preconceitos. Isso com ajuda de seu par romântico, Keith Charles (Mathew Saint Patrick), o policial fortão e companheiro.

Claire, a adolescente um tanto perturbada, está passando por aquela fase de formação de caráter. Ao longo das cinco temporadas da série somos capazes de acompanhar a evolução da personagem e suas aventuras enquanto se torna uma mulher completa, talvez até a mais bem resolvida da trama, apesar de toda sua revolta. Claire vem com a força arrebatadora dos adolescentes, tentando entender o que acontece a seu redor, ser amada e entendida por aqueles com quem convive e deseja.

A matriarca Ruth entre seus filhos David e Nate.

Ruth, a mãe controladora, se vê perdida em suas próprias crenças. Após a morte do marido esta se culpa por tê-lo traído. Mas a traição se faz aceitável quando abraçamos e percebemos a personagem: uma mulher forte e carente, que não se deixa abater. Interessante ver que enquanto Claire aproveita sua adolescência vivendo seus romances, Ruth passa a experimentar o mesmo tardiamente — afinal ela não vivenciou isto em sua adolescência já que se casou muito jovem.

A sede de Ruth por romance e sexo as vezes é ainda maior do que a de sua própria filha, que vive a idade dos hormônios. O embate de ideias entre elas, representado pelo choque de gerações, é muito interessante e bem trabalhado ao longo das temporadas. Aos poucos vêmos que a relação entre mãe e filha se desenvolve e que Clare também se faz importante na formação de carater e raciocínio de sua mãe.

Rico, o latino radicado nos Estados Unidos, é um craque da restauração de cadáveres. Através dele acompanhamos as dificuldades de um estrangeiro e sua família na vivência do american way of life. Muito mais do que isso, acompanhamos suas ambições, recaídas e buscas junto aos Fishers, sua esposa e filhos.

Por último, mas não menos importante, temos Brenda, que nos introduz a um núcleo importante na trama: sua transtornada família. O engraçado paradgima talvez seja o ponto forte da série: enquanto a família de Brenda é formada por psicólogos, o lar destes é ainda mais confuso do que o de Nate, cujo ambiente é uma funerária.

Coleção completa de Six Feet Under em DVD.

Brenda é a adulta de vida indefinida, a ex-revoltada que se vê perdida na vida como resultado de sua fúria adolescente totalmente permeada pela vontade de apenas ser contra o que seus pais esperavam, mesmo sabendo que a figura deles exercia grande influência sobre ele.

E isso fica claro quando vêmos a semelhança de caráter entre ela e sua mãe. O mesmo futuro é reservado para ambas. Além disso, Brenda acrescenta drama à série por conta de seu estranho envolvimento com Nate, por vezes até doentil. Mas não há o que faça você torcer contra a junção do casal.

Após ler tudo isso, se eu disser que a série basicamente fala sobre a morte e sua imponência sobre cada um de nós, pode parecer normal, certo? Não é! Mesmo mostrando um caso de morte a cada abertura de episódio, Six Feet Under fala mesmo é sobre a vida. Sobre as dificuldades e belezas de fazer parte dela. Da força que esmorece, mas que continua após cada interrupção que nos é mostrada na tela.

Não fique surpreso ao se pegar emocionado por acompanhar a série e os casos nela apresentados. Não raro você terá vontade de chorar. De soluçar de tanto chorar! Ao final, até quem sabe de estar em luto.

Six Feet Under é garantia de qualidade cinematográfica na TV, lição de vida que faço questão de recomendar a todos.

Destaque para as participações especiais de Jeremy Sisto, James Cromwell, Lili Taylor, Rainn Wilson e Kathy Bates, entre outros de uma constelação de atros.

Com criação, direção e alguns roteiros de Alan Ball (criador de True Blood, Oscar de melhor roteiro por Beleza Americana), tenho certeza que esta será sua mais confortável viagem rumo ao melhor final de seriado de todos os tempos.

Duvida? Te desafio a assistir. E sei que você vai gostar!

Ouça o podcast que fizemos sobre o episódio piloto da série:

[audio:http://www.boxpop.com.br/wp-content/audios/podcastS01E11.mp3]

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