Sobre a cena mais lamentável de Amor à Vida

A Semana Brasil do Box já acabou e todas as colunas voltaram ao normal, mas eis que chega a segunda-feira, dia 18 de novembro de 2013, e tudo muda. Sim, mudou porque o feriado da Consciência Negra foi transferido de quarta para segunda (ao menos na minha cidade foi assim). Mudou porque o Vídeo Show passou a ser programa de auditório apresentado pelo Zeca Camargo. Mudou porque tivemos a cena mais lamentável em Amor à Vida.

Parem e pensem um pouquinho. Você é um autor de novelas renomado, que fez uma carreira muito sólida nos horários das seis e das sete. E você f oi convocado para escrever um folhetim no horário nobre. E ainda conseguiu criar um vilão aceitável, que caiu nas graças do público. E esse vilão tem um segredo bombástico porque jogou a sobrinha recém-nascida em uma caçamba coletora de lixo. E esse vilão será desmascarado em uma cena aguardada ao longo de toda a novela.

Para completar a situação hipotética, você tem à sua disposição o talento de Antônio Fagundes, de Nathália Timberg, de Susana Vieira, de Elizabeth Savalla, de Mateus Solano. E o que é que você consegue fazer com tudo isso?

NADA. Você só é capaz de escrever uma cena lamentável, constrangedora, desnecessária.

[pausa para reflexão. Essa reflexão pode ser feita ao som de alguma música do Daniel]

A começar pela construção narrativa que culminou na cena de segunda-feira da novela Amor à Vida. Se já não bastasse chupinhar Grey’s Anatomy, o senhor Walcyr Carrasco transformou o Fagundão no agente Peyton Driscoll. Echarpe com marcas de sangue preservadas por mais de dez anos, secretária pegando as digitais do patrão impressas em uma xícara, contatos com um datiloscopista (nunca achei que um personagem de novela fosse usar essa palavra durante uma discussão fazendo soar tão normal quanto a palavra “sofá”). E eu lá, sentado no meu sofá, presenciando esse circo de horrores.

E os diálogos? Meu Deus, os diálogos! Que coisa mais fraca! “Vamos levar o caso à polícia?”. “Não, não é mais caso de polícia, É CASO DE VIDA.” Até eu que sou mais leigo, sei que sequestro, tentativa de homicídio, omissão de socorro,tudo é caso de polícia. Aí vem a Timberg e repete tudo o que já foi dito, só que com outras palavras: “César, você pretende levar o caso à polícia?”. E qual a resposta que o Driscoll dos trópicos dá? “Não, isso prejudicaria muito o San Magno.” E o Salvador, que de salvador só o corpo mesmo, assume a voz dos milhões de brasileiros, e pergunta: “Até numa hora dessas o senhor pensa no hospital?!”. Como bem disse a Gi, minha amiga, o nome da novela deveria ser AMOR AO HOSPITAL, que a vida mesmo não conta. Obrigado, Gi!

Só que o pior não é isso. Paolla Oliveira, que todo mundo sabe que tenho certa ojeriza, tem mais uma chance de provar que é mais que um rostinho bonito na televisão, faz sabe o quê? Faz sua tradicional cara de louca reloaded, borra o rímel, fecha os olhos como se tivesse mil graus de miopia e faz a louca desolada, uivando. Como é que alguém continua investindo nessa moça? Deixa ela como coadjuvante e tá tudo em casa.

Obs: depois da Carrie da Claire Danes, ninguém conseguirá superar a loucura na TV. Beijos.

Pior que ela só o moleque que faz o filho do Félix e que eu nem me dei ao trabalho de googlear para saber o nome do ator. Afinal, além de não ter paciência com quem tá começando, eu não sou obrigado a saber o nome de ator péssimo. O couro comendo, o circo pegando fogo, e ele lá, estático, impassível, com aquela cara de lhama em pleno Dia da Marmota! Isso porque eu nem vou falar do mordomo.

Savalla avulsa, só dizendo algumas expressões de “oh”, “meu menininho”, e coisas do gênero. Não agregou valor ao camarote.

E o pastor? Gente, que fala é essa: “Evangélico não mente”? E para que sutileza se eu posso dar closes constantes nas letras garrafais de uma capa da BÍBLIA SAGRADA? Isso me deixou ainda mais constrangido diante de tudo isso.

O que salvou nesse balaio de gato? O Mateus Solano, as usual. O cara tá tirando leite de pedra daquele texto medíocre. Épico vê-lo quebrando cadeiras e mais cadeiras (confessa que você sentiu vontade de fazer o mesmo!), enquanto vomitava falas apelativas, retiradas de algum manual de psicologia barata freudiana e se contorcia no chão em posição fetal. Mérito do ator, claro, que conferiu certa dignidade ao texto indigno.

Saí da sala antes da conclusão do evento. Walcyr mirou na grandiosidade e acertou no mediano. Saudades de um bom autor como o João Emanuel Carneiro que conseguiu escrever, como poucos, uma boa cena de desmascaramento de vilão. E depois de segunda, resta a pergunta: tem como ficar pior?

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