The X-Files 10×03 — Mulder & Scully Meet the Were-Monster

Darin Morgan presenteia os fãs com mais um monstro clássico em Mulder & Scully Meet the Were-Monster.

Sim, é assim que eu gosto do meu Mulder.” — SCULLY, Dana

Lá pela longínqua 2ª temporada, The X-Files já tinha firmado sua fama de sci-fi sombrio. Por isso, a proposta de roteiro cômico trazida por Darin Morgan causou certo receio nos produtores da Fox, mas Chris Carter comprou a ideia de colocar os agentes em investigações um tanto embaraçosas… Foi um sucesso absoluto!

O episódio já começa em uma situação inusitada: pessoas chapadas presenciando o ataque de um monstro a um humano. O antigo Mulder agarraria esse caso com unhas e dentes, mas nesse momento está desacreditado de seu trabalho. Sua frustração é tamanha que os lápis que arremessa, antes direcionados ao teto, agora têm como alvo o pôster — símbolo de sua personalidade (que hoje pertence à Scully).

Hoje, a tecnologia permite que fraudes sejam construídas e desmentidas com extrema facilidade — diferente de 23 anos atrás — justificando a crise existencial de Mulder em relação ao seu trabalho nos Arquivos X. Scully não é uma crente, mas hoje, pelo menos, se permite a dúvida. Enquanto Mulder, por mais que afirme querer acreditar, precisa desesperadamente de provas concretas, algo que as novas tecnologias também são capazes de fornecer.

O plot com o aplicativo da câmera e a dificuldade de usá-lo durante as perseguições renderam boas cenas, revelando o velho Mulder pronto para abandonar seu recente ceticismo. Mas até aí o episódio não tinha nada demais com seu humor estilo pastelão. A virada começa de forma suave, em um dos melhores diálogos de todas as temporadas: Mulder tecendo todo seu rosário de teorias para Scully e contra-argumentando consigo mesmo (utilizando vários dos pontos de vista usados por ele durante 9 anos de investigação juntos).

A dinâmica entre eles é maravilhosa! A empolgação dele, as expressões dela, a chama de esperança apagada quando ela diz que tudo aquilo é besteira… E ainda assim, é possível ver que Scully realmente está gostando daquilo novamente. Se formos pensar no diagnóstico de ‘depressão endógena’, podemos supor que Mulder tenha passado por dias bem ruins. Por isso, justifica-se a satisfação de Scully ao vê-lo entusiasmado novamente.

Ela é analítica e o tempo a fez mais paciente com Mulder. Se antes batia de frente, agora vemos sua postura mais madura, ouvindo atentamente e permitindo a ele ter suas próprias respostas. Ambos fiéis as suas personalidades. Enquanto Mulder estava voltando a ser ele mesmo, Scully estava juntando dados concretos e descobrindo o real assassino (o mais óbvio e improvável) e o capturando (sozinha).

Então temos um dos melhores twists de toda a série. Por mais que os roteiros de Darin Mogan brinquem com o absurdo e o monstruoso, também abordam temas profundamente humanos. A inversão do clichê ‘humano é mordido por um monstro e passa por um processo de transformação’ é tão surreal, que se torna um choque de realidade. Dizem que os monstros são estranhos, mas e os humanos, não são?

Pelos olhos de Guy (Rhys Darby) podemos nos ver: escravos de uma rotina autoinfligida, muitas vezes agindo mecanicamente em trabalhos que não nos satisfazem, sem estabelecer conexões realmente humanas com as pessoas ao nosso redor, expondo nossas vidas privadas por meio de mentiras, tentando parecer irresistíveis, fazendo uso de remédios para tentar (sem sucesso) fugir de estereótipos.

Como não se compadecer de sua ingenuidade ao descobrir o mundo humano, com suas peculiaridades e até monstruosidades. A metáfora bíblica da percepção da nudez e a necessidade do trabalho foi usada de forma poética no roteiro.

Durante 9 anos de Arquivos X, Mulder já tinha visto de tudo: humano e não humano. Ele conhece tanto a maldade quanto o instinto, mas nunca havia estado tão próximo do absurdo, que ali se despiu para ele (metafórica e literalmente) da forma mais verdadeira, fazendo que o mundo de possibilidades extremas se abrisse novamente aos seus olhos. Não basta querer para acreditar, é preciso abrir-se.

Parece que temos nosso velho e bom Mulder de volta.

Enquanto isso, mais uma vez Scully tenta a sorte com um cachorrinho de estimação.

Curiosidades:

– A cueca vermelha que Mulder usa quando está sendo espionado parece uma referência à famosa cena onde ele nada com uma sunga da mesma cor, no episódio Duane Barry da 2ª temporada;

– O primeiro cachorro de Scully, Queequeg, apareceu no episódio Clydes Bruckman’s Final Repose da 3ª temporada;

– Dagoo e Queequeg são personagens do livro Moby Dick, obra que é um símbolo importante na relação entre Scully e seu pai;

– A teoria de que Scully seria imortal veio da junção de dois episódios, o já citado Clydes Bruckan’s Final Repose e Tithonus da 6ª temporada;

– O toque do celular de Mulder é apenas o tema de abertura da série (metalinguagem, como não amar?);

– O animal pendurado na parede, por onde ele espia Scully dormindo é uma… raposa!

– Na lápide onde Mulder dorme após o porre está uma homenagem a Kim Manners, produtor e diretor de vários episódios da série. Ele morreu em 2009;

– Gillian Anderson tuitou que o desenho do monstro foi feito por sua filha mais velha, Pipper, que participou da série na 2ª temporada, ainda na barriga da mamãe.

A seguir, o promo do episódio 10×04, que promete muitas emoções:

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