Transparent: a tragicômica questão de gênero

Mais uma coisa. Eu fiz uma promessa aqui na semana passada de que ira contar para os meus filhos, e eu não fiz isso. Por que não era a hora, sabe?” — PFEFFERMAN, Mort.

O fundo laranja, o título em branco, o leve piano ao fundo. Tudo remete a uma das comédias conhecidas de Woody Allen. Mas na verdade trata-se da nova aposta de Jill Solloway e do site Amazon. Quem desconhece Jill, basta dizer que ela é o nome por trás de preciosidades como Six Feet Under e United States of Tara. Precisa de mais?

E não foi apenas o início que remetia aos filmes de Allen; a estrutura básica também flerta com o universo do diretor nova-iorquino. O início aparentemente lento serviu como luva para apresentar as neuroses e os desajustes dos personagens. O público, acostumado com pilotos mais dinâmicos e ágeis à la Shonda Rhimes, pode estranhar os minutos iniciais de Transparent. Mas o episódio ganha força conforme avança.

A trama é bastante simples. Uma tradicional e família americana com pais separados e três filhos. A mais velha, Sarah, é uma responsável mãe de família, com um marido, porém, possui um passado homossexual com uma jovem que reaparece no presente. O do meio, Josh, está envolvido na indústria do entretenimento e mantém um relacionamento sexual com uma das integrantes da banda que produz. E a mais nova, Ali, é insatisfeita com o próprio corpo, instável emocionalmente e cheia de problemas financeiros.

Transparent thumb

Até aí, tudo bem. A problemática do seriado advém quando o pai, Mort, um senhor de idade, se prepara para revelar aos seus filhos o seu grande segredo: ele é um transgênero.

O grande acerto de Transparent é que a identidade de gênero de Mort não foi banalizada e nem utilizada como artifício dramático para desencadear o riso. Ao contrário, é bastante humanizada, delicada e uma abordagem bastante sensível. Sem dúvida, a experiência de Jill Solloway com o tema serviu para tal resultado.

Geralmente, séries em que homens se vestem de mulheres ou mulheres se vestem de homens descambam para o humor rasgado e quase depreciativo. Não é o caso de Transparent. Sem dúvida, há o humor, mas ele é natural, orgânico, surge sem ser forçado. Exemplo é a cena que encerra o piloto quando o pai, travestido, se depara com a filha mais velha beijando a ex-namorada.

Outro grande acerto do piloto foi não estender o suspense a respeito do segredo de Mort por muito tempo. Logo no meio, o espectador já está familiarizado com a situação e aguarda o momento em que ele revelará para os filhos.

Jeffrey Tambor, mais conhecido por seu papel em Arrested Development, brilha como protagonista. Sua composição é extremamente crível e passa uma ótima verdade. É impossível não se emocionar com o veterano ator, principalmente na sequência do grupo de apoio. O elenco de apoio também está a altura, com destaque para Gaby Hoffman e sua Ali.

Lá fora, a série recebeu ótimas críticas e tem tudo mesmo para ser mais um sucesso no currículo de Jill. Os transgêneros necessitam mesmo de obras que os olham com mais cuidado e delicadeza, retratando a complicação de destoar do comportamento de vida conservador. Transparent é uma série extremamente necessária.

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