Uma Imbecilidade chamada Martyrs (2016)

Nunca na história dos remakes americanos um filme ficou tão imbecil como o remake do consagrado Martyrs (2008).

Se você acreditava que a força dos remakes em Hollywood tinha chegado ao fim devido a entrada das adaptações juvenis, de reboots e de inúmeros filmes de super heróis, que invadiram o cinema nos últimos seis anos, precisa repensar duas vezes com a chegada desse novo filme.

O mais curioso é que o gênero que mais sofre nas mãos desses remakes desnecessários é o terror. Se analisarmos bem nenhum remake — tanto de clássicos originais (A Profecia, Halloween ou O Sacrifício) quanto de filmes vindos de outros países ( [REC], Água Negra e até mesmo O Grito) — conseguiu repetir o mesmo sucesso em sua nova versão. Porém, temos agora um filme que, além de desnecessário, é praticamente ofensivo ao seu material original. Estamos falando do filme franco-canadense de 2008, Martyrs, que fez um sucesso relativo quando foi lançado e principalmente pelo seu material cruel e realista.

Sendo curto e grosso, esse remake é uma porcaria sem tamanho. Chega a se tornar idiotice querer comparar a qualidade do filme original com o que encontramos nessa catástrofe. A história segue exatamente a mesma linha do primeiro. Acompanhamos a fuga de Lucie, uma garotinha sequestrada que era torturada regularmente. Salva de seus agressores, é encaminhada para um orfanato católico onde conhece Anna que virará sua melhor amiga. A vida de Lucie não é fácil, diversos traumas a perseguem e a assombram. Porém, em sua pequenina mente conturbada, planos de vingança surgem.

Se for para indicar qual dos dois é preferível assistir, com certeza devemos ficar com o original, sem nem pensar. O longa de 2008 é impecável, cheio de cinismo e que traz diferentes formas de abordagem para sua violência gráfica, além de uma história totalmente original. Agora, sobre o americano, as reviravoltas que existem na trama certamente vão prejudicar totalmente o original, perdendo assim a graça do filme. Se você gosta de terror e quer conferir essa obra, procure o original.

O roteirista Mark L. Smith, o mesmo responsável por ajudar no roteiro de O Regresso, consegue fazer o seu pior trabalho nessa adaptação. Se ele pensava em fazer algo mais relevante do que a produção canadense, infelizmente o tiro saiu pela culatra, porque tudo que assistimos nesse remake é de uma péssima qualidade. A começar que o próprio roteirista responde uma das principais questões do filme, que é como a Lucie consegue fugir de seus sequestradores. Depois disso, ele parece não ter assistido ou não ter compreendido o real sentido da figura fantasmagórica, que assombra e persegue a jovem desde a infância, tem todo um sentido importante na obra original e aqui ela é tratada como uma esquizofrenia. Além do vários clichês típicos de filmes americanos, como a jovem “perseguida” que é desacreditada por todos quando revela a verdade e as clássicas cenas de desenhos mal feitos por crianças.

Um outro ponto mal justificado é o que motiva Anna em apoiar Lucie, mesmo depois dela ter começado a sua violenta vingança. Smith mostra que Anna tem dúvidas em respeito a sanidade de Lucie, porém essas cenas no segundo ato perdem totalmente o sentido. Alias, o segundo ato é uma sucessão de erros e besteiras, que nunca nem mesmo o canal SyFy faria. A cena de um bizarro flashback, é totalmente canastrão e tosca.

Além desses problemas na construção do roteiro, um outro que atrapalha o longa é a escolha do elenco. As protagonistas do longa, Troian Bellisario (do fenômeno juvenil Pretty Littler Liars) e Bailey Noble (da série True Blood), até se esforçam para entregar uma atuação boa, porém devido ao roteiro falho, elas acabam soando como preguiçosas na maior parte do tempo. As personagens são muito inconstantes o tempo inteiro do filme, o que acaba prejudicando a afeição dos espectadores.

As reviravoltas ainda chocam, principalmente as que marcam o inicio do segundo ato, porém poucos minutos depois elas voltam à atentar contra si mesmas. Não existe uma explicação lógica e satisfatória do que o filme se propõe, o que torna-o mais irritante. Se no original tínhamos uma explicação plausível e aceitável sobre a tal seita, aqui ela é feita literalmente “nas coxas”.

É tudo resolvido mal e porcamente, jogando todo o trabalho da equipe e dos atores no lixo, devido ao péssimo trabalho de adaptação. Nem mesmo a revelação mesmo que clichê do final do filme, consegue chamar a atenção.

Quem comanda essa catástrofe são os desconhecidos irmãos Goetz, Michael e Kevin. Eles não tiveram culpa da bomba que comandaram, apenas seguiram um trabalho preguiçoso. Diferente de Pascal Laugier que fez toda uma atmosfera doentia, aqui é tudo tão simplória que dá vergonha de dizer que é um remake.

Se vocês esperam bons sustos, com certeza devem procurar um outro filme, porque aqui eles não existem e os poucos jumpscares são bocejantes.

A cena de perseguição na floresta é feita de uma forma tão bizarra que não fica devendo em nada a produções daquele filme de muito baixa produção. A maquiagem também não ajuda, além dos efeitos sonoros péssimos para o fantasma violento.

Mas o que é imperdoável é a maneira que eles mudaram a reviravolta final. Se no original soava como uma poesia cheia de cinismo e egoísmo, aqui ela é algo negativo e assustadora, o que não era para ser. Mesmo que depois tenhamos talvez a única cena que realmente se salva, é triste ver que ela tenha que vir depois de um dos momento mais imbecis do filme.

Bom, Martyrs, assim como tantos outros remakes já feitos, não fazem jus a sua existência. Quem assistiu ao original, vai se sentir com vergonha de ver a destruição de uma obra-prima. E é incrivel ver que a nova versão consegue falhar onde o original nunca falhou, coisa rara de se ver. Infelizmente esse é o tipo de filme que não vale a pena ser visto no cinema e se você realmente quer assistir a um bom filme de terror, assista ao original de 2008. Vocês não merecem ver um filme tão estúpido e imbecil como esse, feito a partir de um roteiro infeliz de um dos piores roteiristas já descoberto nos últimos anos, Mark L. Smith. O remake de Martyrs nasceu fadado ao fracasso.

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