Uma Thurman e Tarantino (ou o risco de confiar demais)

A raiva passou e, finalmente, Uma Thurman falou

“Eu levei 47 anos para parar de chamar de ‘apaixonadas por mim’ as pessoas que são simplesmente más comigo. Levei um tempo enorme, porque, quando somos garotas, nós somos condicionadas a acreditar que crueldade e amor estão interligados. Isso vem de uma época que nós precisamos nos distanciar urgentemente.”

A frase acima foi dita por Uma Thurman, em seu relato sobre o abuso físico e emocional que sofreu. Mais uma vítima direta de Harvey Westein, porém, desta vez, o nome de Tarantino veio, efetivamente, junto. Na verdade, ele já estava na borda há algum tempo. Compreensível, mesmo que não justificável, que ele “soubesse” do que acontecia com as atrizes nos bastidores e não se pronunciasse. Mas a ponto de colocar a vida de sua protagonista em risco?

O acidente que Uma sofreu durante as gravações de Kill Bill está registrado em vídeo. Uma cena perigosa, sem dublê. Apenas porque o diretor do filme quis assim. Coincidentemente após ela rejeitar as investidas de Westein, produtor do filme. Um acidente que deixou sequelas físicas e, para além disso, os abusos durante as filmagens que a marcaram emocionalmente de forma profunda.

Ainda conseguimos nos surpreender… E ainda assim tudo parece tão igual.

Confesso que, apesar de gostar muito de seus filmes, sempre me incomodou um pouco o tratamento sádico ao qual as personagens femininas de Tarantino eram submetidas… Mas a violência sempre foi a marca de seus filmes, não é? Então fazia sentido de certa forma.

Tem também o fato de sim, sermos ensinadas desde pequenas que crueldade significa amor. Sabe aquele menininho que lhe desprezava na escola? Aquele que xingava e, algumas vezes, até batia? Com certeza alguém já falou: “ele faz isso porque é apaixonado por você”.

E aquele crush que esnoba, não retorna mensagens e não se importa com você? Certamente já tentaram lhe convencer para não desistir dele. Porque né? “No fundo, ele é doido por você”.

E aquele namorado/noivo/marido que mente, trai, tira sua privacidade, afasta você dos seus amigos e hobbies, mas se você reclama em algum momento ele reverte e lhe convence que a louca é você? Bom, ele faz isso, porque, na verdade ama verdadeiramente… É o que ele faz você acreditar.

Ah, e o namorado/noivo/marido/rolo/crush que ao invés de fazer um carinho de verdade, belisca, dá mordidinha, cutuca, dá palmadinha e quando você pede para parar “porque está machucando” ele lhe chama de fresca e, além de ficar ofendido, não para? Mas é porque “Pancadinha” de amor não dói.

Dói sim. Tudo isso dói. Uma cultura que coloca a mulher em risco ou em dúvida por não atender aos desejos egoístas dos homens dói, emocionalmente, fisicamente, psicológica, moralmente.

As entrelinhas nem são tão subentendidas assim. A forma como o gênero feminino é visto está presente nos roteiros dos filmes de Tarantino. Está presente nas negociações de contratos de trabalho. Está presente nos relacionamentos ao nosso redor.

A boa notícia é que o tempo em que tudo isso acontecia e ficávamos caladas, acabou.

Tarantino, está buscando se redimir, mas vai ser impossível rever Kill Bill sem pensar no sofrimento pelo qual Uma passou. Assim como vai ser difícil não imaginar o que as demais atrizes de sua filmografia não possam ter suportado.

Sobre o Autor

Ana Paula Souza

Psicóloga por vocação, Cientista da Religião por curiosidade e bailarina por paixão. Às vezes metáforas descrevem o mundo melhor que dissertações.

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