Xuxa não é só para baixinhos

Especial XuChá na Record mostra que a loira ainda move multidões.

Num certo momento durante o especial da Xuxa na Record, a câmera focaliza os rostos das pessoas presentes. Todas com os olhos umedecidos, pele vermelha, maquiagem borrada. Mesmo que tenha passado tantos anos se dedicando ao público infantil, no fim das contas, quem mais aprecia o trabalho de Xuxa são mesmo os adultos.

Xuxa começou sua carreira nos anos 1980 na extinta TV Manchete no Clube da Criança. Depois, acabou migrando para as manhas da Rede Globo onde comandou por mais de uma década o Xou da Xuxa. Mesmo não sendo cantora, lançava discos anualmente e, não raro, ultrapassava a marca do milhão, sendo a culpada pela criação do disco de diamante (até então, no Brasil, nenhum artista tinha vendido mais de um milhão de cópias).

Sua voz esganiçada, geralmente dois ou três acimas do tom natural e mantida à base de anti-inflamatórios durante a gravação dos álbuns, embalava canções de letras fáceis e ritmo envolvente. Qualquer pessoa com 30 anos ou mais conhece hinos como A Festa do Estica e Puxa, Ilariê, Tindolelê, Lua de Cristal, entre tantos outros hits. Xuxa, praticamente, foi uma tia do axé.

Com o advento da internet, uma nova geração começou a descobrir Xuxa. E, melhor ainda, os outrora baixinhos perceberam comportamentos da loira que não conseguiam enxergar na época. Paulatinamente, veio à tona uma Xuxa debochada, que não tinha vergonha de zoar crianças, proferir sentenças de duplo sentido, sexualizar uma geração inteira com suas botas e tops. Se os anos 1980 fizeram de Xuxa uma Rainha, os anos 2000 a transformaram em uma entidade.

Renovando o pacto

A idade de ouro

Já na casa dos cinquenta, Xuxa percebeu que manter-se relevante no cenário atual é abraçar sua persona de Rainha dos Baixinhos (que agora estão bem grandinhos) e expor publicamente a pessoa que sempre foi. Longe da Globo e das amarras que ainda a prendiam, Xuxa fez de seu programa na Record um pastiche de si mesma.

Mesmo acusada de ser uma cópia tupiniquim da Ellen DeGeneres, Xuxa parece não ter mais receio de aceitar que ela é, de fato, uma debochada e não tem mais medo de rir de si mesma. Suas participações no Porta dos Fundos e no comercial da Netflix demonstram justamente essa nova fase da apresentadora. E o público? O público simplesmente amou e aprovou.

Os detratores enxergam nela uma coitada, agonizando em praça pública, fazendo de tudo por cinco minutos a mais de fama. Os fãs não pensam assim. Ao contrário, entendem que Xuxa não precisa de mais cinco minutos de fama. Ela chegou a um patamar que poucos artistas nacionais alcançaram e pode dedicar-se ao que bem entende.

Se banhando no éter

XuChá

Criado em 2009, o Chá da Alice é um evento musical com a temática inspirada no filme da Walt Disney Alice no País das Maravilhas. Sem um local fixo, sua realização foi em diversas casas de show no Rio de Janeiro, em seu primeiro ano, e em outras cidades nos anos seguintes. Muitas artistas são chamadas para participar da festa. Mas nenhuma delas causou mais frisson do que Xuxa Meneghel.

Quando surgiu a proposta, Xuxa ficou indecisa se deveria aceitar ou não. Consultando seu público nas redes social, ficou espantada com a resposta recebida. E assim começou a orquestrar seu retorno aos palcos após longos anos longe dele.

Em duas edições até o momento, uma no Rio e outra em São Paulo, Xuxa contou com casa cheia e ingressos esgotados em pouco tempo (ainda que alguns deles custassem a bagatela de quatrocentos reais). Após tantos anos, Xuxa ainda é um fenômeno.

Entendendo sua nova posição no cenário brasileiro, Xuxa decidiu ousar. Além dos elementos tradicionais de sua cultura (a nave, os assistentes de palco, as paquitas, os paquitos), trouxe novos conceitos como as paquidrags, os paquitos sarados e descamisados com direito a beijo de língua entre eles. Sem dúvida, a geração que cresceu ao som de Arco-íris entendeu muito bem o recado dado pela canção.

Reunindo seus grandes hits em versões originais, Xuxa chegou em uma nave, dublou seus sucessos, reviveu suas coreografias marcantes, se emocionou e emocionou a plateia. Ela estava de volta e sabia disso.

Observando você desejar meu fim

#XuCháNaRecord

Na noite de 19 de dezembro, Xuxa decidiu levar à telinha da Record uma versão compacta e editada de seu XuChá. A decisão parecia, mais uma vez, uma atitude ousada. Afinal, o tipo de show apresentando no Citibank Hall não era exatamente o que o espectador está acostumado a ver na emissora de Edir Macedo.

Para amenizar um pouco as tintas, Xuxa optou por uma edição que mesclava partes do show ao vivo, bem colorido, com passagens de depoimentos em preto e branco. A fonte em que beberam foram os documentários Na cama com Madonna e I’m going to tell a secret, de Madonna, que também foi usada como trilha da abertura.

A decisão não foi a melhor. Acabou atravancando o show e privando o espectador da totalidade. Claro que as canções e as performances compensaram um pouco, mas todos os cortes para exibir Xuxa falando sobre a carreira, a família, a concepção do show, impediram um clímax. Quando chegou Lua de Cristal, o poder da música poderia ter sido melhor se o show fosse exibido na íntegra.

Outra coisa que chateou foi quando Xuxa falou sobre a escolha diversificada das paquitas. No entanto, as paquidrags foram deixadas de lado. Nem sequer foram mencionadas. Assim como o beijo de língua entre os paquitos. Por mais que haja algumas inovações, a Record continua tendo uma forte ideologia cristã.

No fim, o XuChá serviu para que Xuxa percebesse que ela ainda é uma estrela, tem bastante influência sobre seus fãs e, mesmo que o grande público não dê a audiência que ela tinha outrora, é a eterna Rainha dos baixinhos de todas as idades.

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