Zé do Caixão 1×04 — Episódio Quatro

A chegada da censura em Episódio Quatro é a injeção de vida que Zé do Caixão precisava.

O povo ouve o Zé do Caixão, e agora o Zé do Caixão vai falar!” — MOJICA, José

Até Episódio Quatro, a série Zé do Caixão estava patinando no legado deixado por José Mojica Marins. Havia um grande atrativo na forma de Matheus Nachtergaele e sua excelente interpretação, mas a série estava contente em ser um Greatest Hits do personagem brasileiro icônico, sem muita conexão entre eles exceto algumas repetidas histórias chatas.

Os primeiros momentos de Episódio Quatro sofrem desse problema também. Vemos cenas randômicas sem muita conexão que estabelecem pequenos detalhes sobre quem é José Mojica Marins. Um momento em um bar com um beijo lésbico serve apenas para deixar claro que Mojica não usa drogas, só que o detalhe é repetido tanto durante o episódio que a cena acaba sendo totalmente desnecessária.

No entanto, por volta dos dez minutos do Episódio Quatro, um inimigo é introduzido na forma do Delegado Flores, uma representação da mão de ferro dos militares que estava prestes a ficar mais forte com a instituição do AI-5, ato que deu inicio aos anos de chumbo da ditadura.

Flores, interpretado por Mario Bortolotto, caminha a linha entre ser um símbolo da corrupção da ditadura e do medo que as pessoas sentiam naquela época. Bortolotto tem que ir de ‘policial incompetente’ a ‘delegado aterrorizante’ com rapidez, muitas vezes na mesma cena, o que é um sinal de sua habilidade como ator.

O fato que Bortolotto consegue se sobrepor ao excelente Nachtergaele mostra não só o quão bom o ator é, mas o quanto a série precisava dele. Zé do Caixão estava tão perdido, tão satisfeito com só repetir aquilo visto nas inúmeras biografias da carreira de Mojica, que até a atuação de Nachtergaele estava perdendo seu esplendor. Quando Flores chega, é como se a série acordasse.

As cenas ficam muito mais interessantes agora que a tensão é algo palpável como a tortura da ditadura. Uma cena mostrando a gravação do Despertar da Besta, filme que a censura nunca deixou lançar, se tornam mais do que só uma reconstrução quando o fator tensão é adicionado na forma de uma mulher chamando a polícia. A cada momento, o público espera o Delegado chegar. Cada segundo é mais tenebroso do que o outro.

A censura funciona muito bem como um elemento da série Zé do Caixão, especialmente por mostrar este momento tão importante na história do Brasil pelos olhos de um cineasta. Sem contar que a censura do filme acaba sendo uma chance de analisar um pouco mais o personagem de Mojica, dando a ele uma complexidade que vai além do sexo.

O terror que vem daquilo que não se vê acaba sendo mais excitante do que qualquer nudez gratuita, e Episódio Quatro estabelece um caminho do qual a série não deve se desviar.

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