A jornada pelo agreste nordestino de Boi Neon

Falando sobre os papéis de gênero e o mundo das vaquejadas, Boi Neon traz a dura realidade do sonho de querer ser estilista no agreste de adversidades.

Boi Neon estreou nos cinemas brasileiros nessa última quinta-feira (14), em meio as polêmicas das cenas de nudez e de sexo. Uma coisa deve ser dita: Sou cético com cenas de nudez e sexo quando usadas apenas para polemizar e atrair o público, porém as cenas do ganhador do último Festival de Cinema do Rio são peças funcionais do roteiro, logo não há do que reclamar. Além disso, grávidas não fazem sexo? Com tantos outros pontos a debatermos no filme, justamente, uma grávida fazendo sexo eclipsa todo o seu conteúdo. Todavia, vamos nos concentrar na crítica.

Iremar é um ajudante de vaquejadas que sonha em ser estilista. Viajando pelo agreste nordestino, ele é acompanhado pela caminhoneira Galega e sua filha, além dos outros ajudantes. O mundo das vaquejadas é mostrado de forma fidedigna: a vida itinerante, o trato com os animais, as expressões idiomáticas, a alimentação. Tudo está lá. Quando assisti ao filme, pensei que essa parte traria mais polêmica com as sociedades de proteção aos animais, do que as cenas para maiores de 18 anos.

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O sonho de Iremar é algo distante e inalcançável, e todas as dificuldades para alcançá-lo estão lá. Falta tudo: materiais de costura, moldes, maquinário, dinheiro, conhecimento. Ponto alto da direção ao mostrar essas adversidades de forma não melodramática e usando os cenários da vaquejada.

Outro ponto forte do diretor Gabriel Mascaro é a forma como ele brinca com os papéis pré-concebidos de gênero. Galega é a líder da trupe, não está preocupada com sua aparência, dirige o caminhão e cuida da filha sozinha. Cacá também não está preocupada com nada considerado “feminino”, seu amor são os cavalos e a vida na estrada.

A fotografia do filme — que mostra os polos industriais distantes — e a ausência de trilha na maior parte do longa, acentuam o quanto as vidas de Iremar, Galega e Cacá estão distantes de seus respectivos sonhos. Porém, nem tudo é perfeição no longa.

Enquanto Juliano Cazarré se apropriou de forma magnânima do sotaque e das gírias nordestinas, faltou uma preparação corporal mais adequada. O corpo do ator destoa daquela realidade, a barriga tanquinho e a marca de sunga são mais adequadas aos seus papéis televisivos do que a realidade em que acontece o filme. A mixagem do som também não ajuda. Em alguns pontos, o som do ambiente fica tão alto que mal dá para ouvir as vozes dos personagens durante as vaquejadas.

Outro ponto crítico do filme é o seu final, que promete deixar a plateia de cabelo em pé. De antemão, antecipo que esse não é um filme à la Project Runaway; sonhos não se tornam realidade quando não há terreno fértil para tal.

O filme mostra todas as dificuldades para você empreender e materializar os seus sonhos quando ninguém acredita em você e o ambiente em que você está inserido só o coloca para trás, fazendo com que ótimos empreendedores, ou profissionais, nunca venham a ser descobertos pelas massas. A função desse filme é fazer você refletir sobre algo que parece tão distante, mas na verdade ainda compreende a realidade de milhares de brasileiros do interior.

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