A releitura de Cavaleiros do Zodíaco e o machismo na sociedade ocidental atual

Quem foi criança na década de 90 aqui no Brasil com certeza se lembra dos desenhos da Manchete. Porrada atrás de porrada, muito sangue. O carro-chefe disso tudo era, sem sombra de dúvida, Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya no original.)

CDZ conta a história de cinco meninos lutando para salvar sua Deusa Athena reencarnada e o mundo. Quando criança, todos os meninos faziam de conta serem os cavaleiros de bronze. Mas um dos personagens sempre era o último a ser escolhido.

Em um mar de personagens crus, mal construído e brutos, Shun se destacava por ser o oposto. Doce, sensível, pacifista, delicado, andrógino, usando uma armadura cor-de-rosa. O jovem guerreiro de cabelos verdes se recusava a lutar e isso, somado à todos os outros adjetivos, fez com que fosse ridicularizado e tomado como homossexual. E não, ser homossexual não é ofensa para ninguém. Mas estamos falando do início dos anos 90.

Mercadologicamente falando, esse preconceito com o Shun era escancarado. Seus brinquedos eram mais escassos, pois os meninos não compravam, logo as lojas não pediam aos distribuidores. Ainda há pouco tempo, a C&A lançou uma linha de camisetas com a temática da série. O único cavaleiro que não teve seu rostinho estampado em uma peça de roupa foi quem? Ele mesmo! Nosso guerreiro de Andrômeda.

Corta para dezembro de 2018, onde a Netflix exibiu durante a CCXP um trailer exclusivo de sua releitura para a série. A gigante do streaming tem como missão fazer o anime estourar nos Estados Unidos. Logo, ela decidiu dar uma repaginada no desenho. Só que nessa repaginada, uma coisa aconteceu… Shun não é mais um homem! Isso causou furor na fanbase.

Por conta da polêmica instaurada, o roteirista Eugene Son foi ao Twitter explicar a mudança de sexo do personagem. Falou sobre a força do personagem, sobre estarmos em 2018 e não ser mais algo aceito um desenho somente com protagonistas homens. Quanto a isso, eu também concordo. O problema está em ter quatro personagens extremamente parecidos de personalidade e um diferente, que foge do senso comum de um guerreiro, e transformar justamente o diferente em mulher alegando representatividade. Na verdade, o personagem Shun já era representante de várias coisas. Por conta dele, muitos homens entenderam que tudo bem ser diferente, que tudo bem ser sensível.

Uma das justificativas de Son para essa mudança foi o remake de Battlestar Galactica. No original, o piloto Starbucks é um homem. Na nova versão, foi substituído pela atriz Katee Sackhoff, em um belíssimo trabalho como uma mulher decidida, forte, que não precisa da ajuda de ninguém e representa milhares de mulheres mundo afora.

Ademais, transformar o Shun em Shaun pode ser ainda mais problemático, pois o personagem sempre é resgatado por seu irmão mais velho, Ikki. Estaria a Netflix, em pleno 2018, tentando passar a imagem de que mulheres ainda são o sexo frágil e necessitam serem salvas? Que somos donzelas em perigo? Certamente espero que não.

Se a ideia era ter uma mulher no grupo dos cavaleiros de bronze sem demover Marin e Shaina de seus postos como amazonas de prata, temos uma personagem feminina: June de Camaleão, uma guerreira de bronze já existente no canon.

 

Há ainda um último problema com essa mudança de sexo. Shun é Hades. Hades é um deus do sexo masculino. Como irão explicar essa pequena falha?

Contudo, a esperança é a última que morre e, devo assumir, estou curiosa para ver o que acontecerá nesse novo anime, que tem estreia prevista para 2019.

Sobre o Autor

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Michele Bernardes

Professora, tradutora, escritora, geek e nas horas vagas viciada em séries. Ex-SOS Sailor Moon. Escreve no Soul Geek e no BOXPOP.

comentário

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  • Podemos dizer que Saintia Sho será um enorme sucesso, assim como essa produção da netflix um lixo, mas por um lado será bom americanos precisam entender que suas readaptações tornam obras clássicas medíocres e nada como doer no bolso para fazer eles entenderem isso.

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