As metáforas de True Blood

Fale o que quiser, mas o único defeito de True Blood são aqueles dentes de vampiro toscos que nem são caninos… Eu sei que, neste sentido, até o Matosão, meio vampiro de Vamp, sai na frente. Mas, sinceramente, os dentes são meros acessórios aqui. Legal mesmo é como Alan Ball se serve de um mito milenar para discutir assuntos que são problema nos dias de hoje.

As metáforas estão lá, muito bem vestidas na pele de mortos-vivos, telepatas e metamorfos — todos caipiras, vale salientar! Temos num mundo de fantasia o que vemos todos os dias no nosso mundo real de carne e osso: pessoas fodidas, marginalizadas e carentes. E, meu Deus, Ball sabe trabalhar estes conceitos como ninguém.

Casamento Gay

Discute-se em pano de fundo a aprovação de uma lei que tornaria legal o casamento entre seres humanos vivos com estes tais vampiros. Que piada, não é mesmo? Enquanto no Brasil nem mesmo a lei que prega a homofobia como crime existe, lá nos Estados Unidos imaginário de Charlaine Harris e Alan Ball, os caras já discutem o direito de casar com alguém que tecnicamente morreu, com certa naturalidade.

Ok, ali é uma fantasia. Mas vale considerar o contraplano e a apropriação do caso, ponto para Ball. Vale a discussão e a reflexão causada pelo fato de que, neste universo irreal, um ser humano pode casar com alguém que já morreu, mas não com alguém do mesmo sexo.

Maus Tratos aos Animais

Drogas sintéticas? Isso é coisa do passado, meu amor! Sintético é couro e agora sangue!!! Maravilhoso ver a representação na tela de como a ganância faz do homem um caçador por mera falsa necessidade. E eu sei que um vampiro não existe e que se ele existisse não seria considerado um humano. Mas ver algo tão similar a nós mesmos sofrendo maus tratos é de cortar o coração.

Não deveria ser assim com os bichinhos? Óbvio que não existe um tipo de droga que é extraída de um animal, mas a crueldade com que os ‘traficantes’ do filme tratam os vampiros para conseguir o que querem (o tal V-Juice, sangue de vampiro) é tão surpreendente quanto qualquer vídeo do Peta sobre salvar baleias ou ser vegetariado. Dá dó!

Direitos das Minorias

Ver a representante dos vampiros em entrevistas na TV pedindo pelo direito ao voto, clamando para que vampiros tenham a regularidade de uma vida humana é uma ótima sacada para nos mostrar o quanto algumas coisas básicas que estão hoje em nossa cara eram dogmas pesados ontem.

Houve época em que mulher não podia votar e que simples movimentos em prol do voto para todos eram considerados criminosos. Nem tudo mudou, ainda existem direitos a serem conquistados para somente então serem estabelecidos. Mas se até os vampiros, que só dão as caras de noite, conseguiram levar isso ao Congresso dos EUA, a gente também pode!

Aliás, pensando nisso, ainda bem que True Blood se passa nos EUA, afinal se fosse no Brasil seria uma ótima comédia.

Manipulação Religiosa

Essa é talvez uma das críticas mais fodonas do seriado. Em todos os sentidos, afinal colocar uma entidade como a Sociedade do Sol — claramente baseada em movimentos religiosos que tem por base lavagem cerebral, exigência de dízimo e servidão total e inquestionável — é tarefa no mínimo delicada. Me pergunto o que isso causaria sendo exibido em uma novela das oito…

E sabe o que é pior? É que neste caso, a série não faz referência a nada que tenha acontecido há decadas atrás. Essa coisa toda está aí hoje, nos salões de bairro que antes abrigavam desde cinemas a bares decadentes cheios de drogados e prostitutas.

Mas isso não atrapalha as igrejas fast-food que pipocam por aí. Esses novos lares de Jesus se espalham pelas cidades pregando a amoral ideia de que a crença do vizinho, aquele desconhecido, é do demônio. E que o caminho do céu pode ser pago em débito ou crédito, tanto em Master quanto em Visa! Em alguns lugares até com VR

Diversidade Unida

Seja vampiro ou seja humano, se o amor existe, ele é vencedor. Houve tempo em que rico ficava com rico, negro ficava com negro. Em True Blood, vivo casa com morto, podendo ser homem com homem ou mulher com mulher — e nem sempre isso pega bem. Em alguns casos, um vivo com um vampiro é um absurdo!

Talvez o maior problema do romance seja o da vida eterna… Será? Neste caso, não há mais morte que separe, a não ser que seja escolha de ambos, assinada e registrada em cartório. O fato é que um casal deste tipo, no universo da série, tem que enfrentar muito mais dificuldades do que o simples fato de que um deles não vai viver para sempre.

Mas a melhor de todas as brincadeiras relacionando casais fica em uma bobeira que rolou no início da primeira temporada, no qual um jornal colocado em uma mesinha de centro noticiava em letras garrafais: Angelina e Brad adotam vampirinho.

É deste tipo de humor que me vejo sentindo falta. Para graça ou seriedade, True Blood levanta temas e não deixa a bola cair. A série passa por tudo isso e ainda traz terroristas kamikases, homens bombas, vampiro haters… Tem assunto para render e fazer pensar. A bandeira está ali, hasteada. Cabe a nós não só assistir, mas pensar no que vê e querer mudar a realidade. É por isso que sou fã deste hit da HBO que me entretém enquanto enche meu cérebro de questões a serem pensadas.

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