Bacurau é o Nordeste Todo

A visão e as sensações de uma nordestina sobre o filme Bacurau, que está nos cinemas de todo o país.

Me descobri nascida em Bacurau.

Sou nordestina. Nascida e criada em Natal, a Noiva do Sol. Recebemos turistas o ano inteiro, com sorrisos, simpatia e interesse. E, embora eu soubesse do preconceito que o nordestino sofre fora de seu território, acreditava que com os elementos descritos acima, estaria resguardada. Até o dia em que visitei São Paulo pela primeira vez.

Lembro que precisei fazer uma recarga no meu celular, numa bodega* perto de onde estava hospedada. “DDD 84”, comecei a falar. O moço não me deixou terminar, deu uma gaitada e falou: “Paraíba…”. Toda a simpatia morreu dentro de mim, peguei ar e, arengueira que sou, respondi: “Rio Grande do Norte… Oxe! O senhor não sabe geografia não? Só por isso, acabou de perder uma venda.” Dei meia volta. Sem recarga e com um sentimento travoso

Eu havia sido insultada em minha identidade. E essa não foi a última vez que isso aconteceu. Minha estratégia? Atracar cada vez mais no meu ser nordestino. Do sotaque ao vocabulário. Da culinária à música… E no cinema… Ah, obrigada Bacurau, por lavar minha alma!

Há um “eu” racional que concorda com tudo o que já foi dito sobre esse filme. Desde a metáfora sobre o Brasil atual, até as relações desiguais entre povos em nível global. Também sobre a beleza do roteiro, das atuações, da trilha sonora e fotografia… Porém, meu coração nordestino trouxe a experiência para outro nível.

Assistir Bacurau foi sentir-me dentro e fora da tela. Foi cascaviar a mesma sensação travosa  dentro de mim ao perceber o desdém na fala e no olhar dos forasteiros para os habitantes daquele vilarejo. Porque estava acontecendo com as personagens do filme… E comigo também.  

Quantas vezes já ouvi as frases: “Que nasce em Natal é Papai Noel?”, “Quem nasce no Rio Grande do Norte é o quê?” e, em meu sotaque cantado, sempre usei da ironia. Mas, na sala de cinema, vibrei com a resposta do roteiro na voz de uma criança: quem nasce em Bacurau (ou Natal, ou Rio Grande do Norte) é gente.

Sim, a protagonista de Bacurau, está em seu título. Porque a identidade dos personagens que ali vivem confunde-se com a própria energia do lugar. A raiz do nordestino é profunda, como a das plantas que cobrem o solo seco. Cavando a terra em busca de água e fixando-os cada vez mais ali.

Pessoalmente para mim, soma-se também o fato de que Bacurau foi filmado no interior onde minha avó materna nasceu. Afinal, apesar da história se passar em Pernambuco, foi na terrinha potiguar, nas cidades de Acari e Parelhas, que ela ganhou forma.

Embora eu tenha nascido na capital do estado, trago forte na memória os dias passados no interiorzinho onde meu pai nasceu, um local tão parecido com  Bacurau. Uma rua apenas, casinhas coladas umas nas outras, terreiro grande onde se pode correr sem medo. O lugar onde “Paulinha de Paulo de Carmosina” pode ser reconhecida de longe, já que todo mundo se conhece desde sempre.

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles escreveram um roteiro incrível. Mas, mesmo diante do aperreio crescente pela ameaça estrangeira, eu estava muito mais encafifada com a forma como as coisas iriam se dar do que pelo destino da cidade/dos personagens. Porque sei que, apesar dos rótulos usados por boa parte do país para nós – como se fôssemos apenas trabalhadores braçais, ansiando por uma salvação que viria do sul ou do exterior – havia a certeza, corrente no nosso sangue, de que as coisas não iriam findar bem para os “colonizadores”. Dentro do coração a certeza de que seríamos retratados como realmente somos: estratégicos, sarcásticos, alegres, precavidos, espertos, corajosos, adaptáveis, orgulhosos… resistentes… lutadores.

Ora, somos Antônio Conselheiro, Lampião, Maria Bonita, Zumbi, Dandara, Nísia Floresta, Maria Quitéria, Patativa do Assaré, Ariano Suassuna, Rachel de Queiroz e tantos outros. E se há alguns nomes “desconhecidos” aqui, foi proposital, pois neste filme está explícito o quanto nossa história (ah, o museu de Bacurau!), subestimada pela maior parte do país, é reveladora de nossa maior fortaleza. Não se enganem, somos um imaginário mitológico que não se curva a um drone em formato de OVNI.

Não adianta tentar nos homogeneizar ou nos tirar do mapa. O Nordeste, historicamente, sempre foi resistência e acredito que sempre será. Porque como Lunga, a gente se entoca, mas não se omite. Como Domingas, a gente dá carão, mas cuida. Como Damiano, a gente conhece a força que brota do nosso solo. Como Plínio, a gente sabe e transmite sabedoria. Como Pacote a gente erra, mas conserta. E como Teresa, a gente pode até ir… mas volta.

*as palavras em itálico são parte do vocabulário potiguar.

Assista também ao nosso vídeo sem spoilers.
Se você já assistiu a Bacurau, confira a crítica com spoiler.

Sobre o Autor

Ana Paula Souza

Ana Paula Souza

Psicóloga por vocação, Cientista da Religião por curiosidade e bailarina por paixão. Às vezes metáforas descrevem o mundo melhor que dissertações.

Deixe um comentário

clique para comentar

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Lidio Mateus, o brazilian singer da internet, comenta todos os bafos e segredos de sua carreira.

Tem série nova na HBO e os bastidores dela foram recheados de TRETAS. A gente conta todas neste vídeo.

Esse é o filme que vai ganhar o Oscar de filme estrangeiro. Neste vídeo comentamos Parasite. Assista!

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!

OUÇA ACABEI DE LER