Boston Legal

The Practice foi uma série de relativo sucesso, mas de derrocada rápida. Foram oito temporadas, mas em suas últimas duas quase que a totalidade de fãs resolveu abandonar o seriado de tribunal e David E. Kelley resolveu experimentar, já que o cancelamento era quase certo: vamos inserir um personagem totalmente sem escrúpulos para agitar essa última temporada.

E assim nascia Alan Shore, um dos personagens mais multi-facetados e mais apaixonantes que a televisão poderia produzir. O seriado a beira do fim se viu na boca da crítica e do público e James Spader faturou um Emmy pelo papel.

É claro que canal nenhum jogaria um sucesso desse fora sem nem ao menos tentar e, assim, David E. Kelley ganhava um novo seriado em horário nobre e James Spader ganhava o papel principal nessa história — e ganhava aquele que, provavelmente, seria o papel de sua vida, pelo qual ganhou três Emmys consecutivos e foi indicado mais uma vez, além de uma indicação ao Globo de Ouro.

E o investimento foi maior ainda: Alan Shore teria como companheiros de escritório o excêntrico Denny Crane (Willian Shatner) e a charmosa Shirley Schimidt (Candice Bergen) — isso sem contar o elenco de apoio sempre afiado formado por Mark Valley, Julie Bowen e Rene Auberjonois.

O escritório Crane, Poole e Schimidt era um lugar aonde tudo, e mais alguma coisa, podia acontecer: os mais estranhos casos eram defendidos, os suspeitos mais estranhos ganhavam simpatia e sempre, sempre, alguma característica tipicamente americana seria desafiada.

O modelo dos episódios não mudava muito: um caso maior tocado por Alan, normalmente o mais controverso, e um cuidado por alguém da equipe de apoio. Alguma loucura de Denny, algum caso amoroso, alguém juiz maluco, alguém da promotoria para enlouquecer e um encerramento maravilhoso com um discurso de Alan Shore. Depois de tudo isso Alan e Denny em sua sacada, tomando seu uísque e fumando um charuto cubano.

Muita coisa, ou muita gente, mudou ao longo das cinco temporadas. Mas algo sempre estava lá: a crítica inteligente e o humor sagaz. E o tanto de mudança propiciou momentos mágicos como a chegada de Jerry “Hands” Spenson (Christian Clemenson), mais um personagem incrivelmente rico, e Carl Sack (John Larroquette), um personagem carregado de ironia e que mais de uma vez ameaçou uma partida, afinal, aquilo não era um escritório, mas uma casa de loucos.

E é Carl Sack quem eu cito, já que foi dele um dos vários encerramentos inteligentes mostrados no seriado:

“É difícil saber o que realmente faz bem ao ambiente nestes dias. Uma hora nos mandam comer salmão de criadouro, para salvar os salmões selvagens. Outro estudo nos diz que a pior coisa que podemos fazer é comer salmão de criadouros. Existe um novo estudo que diz que a pessoa emite mais gases quando anda do que quando usa seu carro. Isso porque para ter energia para andar mais a pessoa se alimenta mais, o que causa os tais gases. Ridículo? Pode ser. Todos falam sobre o tal etanol. Bem, acontece que, para abastecer um SUV com etanol puro gastamos 150 libras de milho, a mesma quantia que servia para alimentar uma pessoa durante um ano inteiro. Apenas um tanque cheio. Nós ouvimos sobre o fato de que os carros híbridos podem não ser tão bons como imaginamos. Eu digo: a informação algumas vezes pode ser muito contraditória e confusa. E, como consequência, você se sente sobrecarregado e com uma sensação de futilidade. Especialmente quando as pessoas correm e dizem ‘o fim está próximo’. Uma coisa que realmente iria ajudar é se os “Chiken Littles” parassem de gritar “Doom!” e se acalmassem. E então se promovesse um pouco de bom senso. Nós não vamos parar de andar de carro ou desistir carne. Ou do natal. Agora, nós podemos parar de comer salmão de criadouro. Nós podemos reciclar. Podemos usar menos o carro. Podemos usar lâmpadas fluorescentes. Pequenas coisas. Talvez se transmitíssemos a mensagem de que pequenas coisas fazem diferença, nós todos começaríamos a fazê-las. Mas processar as pessoas por não fazer o bastante? Isto é meio bobo, não é não?”

Eram encerramentos como esse que cutucavam várias feridas, mas de maneira inteligente, com argumentos válidos e que nos faziam, ao menos, refletir um pouco ou colocar um sorriso em nossos lábios ao vermos que não estávamos sozinhos em meio a um tanto de insanidade.

Ouso dizer que a televisão nunca será a mesma depois de Boston Legal por um simples motivo: é possível falar de maneira que honre nossa inteligência e eu não aceito nada menos que isso.

Boston Legal é isso: você se diverte, você chora, você tem empatia pelos bons garotos (mesmo quando eles são um pouco ruins), você torce contra os bandidos (mesmo quando eles são representados pela polícia, por exemplo), você torce pelos bandidos (quando são defendidos por Alan de maneira tão espetacular que você acredita que eles são os mocinhos), você não se conforma com algumas coisas que são ditas,você vai ao delírio com os encerramentos mais elaborados.

Mais que tudo: você se apaixona por este escritório e, assim como Carl, chega um momento em que você passa a achar isso tudo normal…

Simone Melitic é a autora deste guest post, ela originalmente escreve para http://soseriadosdetv.com/.

Sobre o Autor

BOXPOP

Site especializado em cultura pop, fundado em agosto de 2007. Confira nossos podcasts, vídeos no youtube e posts em redes sociais. Interessados em contribuir como autor no site podem entrar em contato: contato@boxpop.com.br

Deixe um comentário

clique para comentar

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Personagem afeminado de Cavaleiros do Zodíaco será mulher em remake da Netflix.

Confira o que achamos da versão ilustrada de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban em português.

Wanessa tá de clipe novo. E o clipe define o que "é ruim mas é bom".

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!