Deixe-me Entrar é bem mais que apenas um filme sobre vampiros

O texto de Deixe-me Entrar está sendo adaptado como série de TV para o A&E.

Você tem que me convidar para entrar” — ABBY.

É difícil entender essa mania que a galera de Hollywood tem de americanizar reatualizar roteiros estrangeiros. E a moda realmente pegou, mas antes da enxurrada de remakes, continuações e séries baseadas em filmes hollywoodianos, houve uma primeira leva, cuja necessidade só pode ser justificada pela crença de que só eles produzem histórias que valem a pena ser vistas. Acontece que trazer bons roteiros para solo e língua americanos pode ou não gerar bons frutos. No caso de Let me in, felizmente, nos deparamos com o primeiro caso.

Originalmente, um filme sueco Deixe ela entrar (inspirado no livro homônimo, escrito por John Ajvide Lindqvist) é um conto sobre vampirismo. Tema em alta na época de seu lançamento graças ao sucesso de bilheteria “Crepúsculo”, suas continuações e às séries True Blood e The Vampire Diaries. Poderia ser apenas mais uma história de vampiros se não fosse por um detalhe: os protagonistas são crianças e toda a história se desenrola junto com a evolução do relacionamento entre eles.

Owen (Kodi Smit-McPhee) é um garoto introvertido, que sofre bullying na escola e cujos pais estão em processo, aparentemente não amigável, de divórcio. A fotografia do filme (em tons frios) parece enfatizar a solidão deste garoto de 12 anos, já que ele, quase sempre, é mostrado em close na tela ou com outros personagens fora do plano. Além disso, a decisão de nunca mostrar detalhadamente o rosto da mãe e trazer o pai apenas como uma voz ao telefone nos mostra o quão embotada emocionalmente e sem diálogo é aquela família.

Mas, tudo isso muda com a aparição de Abby (Chloë Grace Moretz) e seu ‘pai’. Só de olhar já sabemos que ela não é uma garota comum (e suas falas repetindo isso, poderia ser tomado como desnecessário, mas no fundo é quase uma necessidade de autoafirmação). Ela caminha tranquilamente descalça sobre a neve e isso atrai a atenção imediata do garoto. Tudo o que envolve Abby tem tons trágicos, desde a expressão abatida do ‘pai’ até a cenografia de seu apartamento, onde nada parece em seu devido lugar.

Porém, eles não podem ser amigos, é o que Abby diz. E todos nós sabemos que basta uma placa dizendo ‘é proibido’ que nós queremos enlouquecidamente transpor a barreira. A questão é que toda a mitologia dos vampiros está voltada para a sedução. Afinal, eles são predadores e esta é a arma que eles utilizam para a caça. E o ponto positivo do roteiro é trazer este tema, envolvendo duas crianças, de forma que não soe vulgar ou tabu. A atração acontece entre os dois sem conotação efetivamente sexual (mesmo que o tema seja abordado levemente, a partir da puberdade de Owen). É apenas magnético.

Sendo mais sutil e por isso mais envolvente do que as demais histórias sobre vampiros da época, Let me in nos fala de uma trágica história de amor (e a referência no livro Romeu e Julieta serve apenas para destacar o óbvio). De início, fica claro que Abby precisa apenas de um bom cuidador, visto que seu ‘pai’ não possui mais energia suficiente para atender às suas necessidades. A primeira grande tragédia reside aí, já que o amor demonstrado pelo homem mais velho parece inversamente proporcional à sua energia vital, ao ponto em que ele decide tornar a si mesmo aquilo que ela precisa.

Então, a relação entre os dois jovens surge naturalmente como uma preparação. Owen, que já tinha todos os elementos para o desenvolvimento de uma personalidade psicopática, é basicamente empurrado a isso por Abby. Ela o transforma em um lutador, em seu novo cuidador. E a cena onde ele usa o bastão, anteriormente utilizado pelo ‘pai’ para omitir um cadáver como arma de vingança, é uma forma sutil de fazê-lo assumir o novo posto.

Por outro lado, não deixa de ser ‘adorável’ perceber que ela também perde um pouco de seu aspecto sombrio pela convivência com Owen. Ao ponto de desejar ser apenas uma garotinha, o que ainda bem não é pronunciado, mas mostrado nas expressões da Chlöe ou mesmo na cena em que ela tenta provar o doce preferido dele. Seria o mais confortável, em termos de roteiro, ter uma alma adulta falando por um corpo de 12 anos, mas a interpretação da atriz trouxe um aspecto infantil que nos faz esquecer as atrocidades de que ela é capaz e torcer para que ambos cuidem um do outro.

Aliás, a escolha do elenco foi um grande acerto. Até os coadjuvantes merecem menção. O detetive, mesmo que com uma pequena (porém importante) participação, não parece caricato. A mãe, que mesmo sem vermos completamente suas feições, nos deixa conhecer sua apatia pelo tom de voz. Os meninos da escola que parecem juvenis em sua vilania, o ‘pai’, para onde conseguimos canalizar toda nossa compaixão.

E, finalmente, o casal de protagonistas. Que linda a interação entre eles, desde o primeiro olhar, as primeiras frases entrecortadas até a aceitação dele sobre o que ela é (o que não pareceu forçado, afinal partiu de uma experiência real e não de conexões teóricas aleatórias). É interessante perceber que eles somente sorriem na presença ou quando algo remete ao outro, como se fosse muito natural estar à vontade entre si.

Chlöe, que na época vinha de Kick Ass — com sua Hit Girl que, embora trágica, tinha uma conotação totalmente diferente -, trouxe Abby como uma metáfora daquela sombra que todos nós temos, mas não queremos admitir. E Kodi, que conseguiu desde o começo do filme transparecer a semente de que ele era exatamente o que Abby precisava.

Diante de tudo o que vem sendo produzido sobre o tema, Let me in vai além do romance adolescente ou terror. É uma bela metáfora para o drama que é crescer em um mundo inóspito.

Assim como o filme, a versão televisiva contará a história de um tímido adolescente que faz amizade com uma jovem vampira, que vive em segredo com seu misterioso guardião. Na série, uma série de assassinatos estranhos começa a acontecer na pequena cidade de Vermont e acaba atraindo a atenção de um agente federal com um passado misterioso.

Jeff Davis, showrunner de Teen Wolf, e o ator/roteirista Brandon Boyce estão a cargo da nova adaptação, ainda sem título definido.

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