Jogos Vorazes: muito mais que um fenômeno adolescente

Em Jogos Vorazes, Suzanne Collins criou uma obra adolescente mais preocupada com a trama do que com o romance.

Feliz Jogos Vorazes! E que a sorte esteja sempre a seu favor!” TRINKET, Effie

Após o fim da América do Norte, surge uma nova nação chamada Panem. O país é governado pela Capital, que comanda os demais doze distritos que o compõem. Há muito tempo houve uma guerra, na qual a Capital triunfou sobre os distritos, hoje gozando de luxos, enquanto os demais sofrem as consequências. Uma dessas consequências são os Jogos Vorazes, uma competição em que vinte e quatro jovens, chamados tributos, entre 12 e 18 anos (um do sexo masculino e um do feminino de cada um dos doze distritos) lutam até a morte, até que reste apenas um, sendo tudo televisionado para o país inteiro.

Katniss Everdeen é uma garota do distrito 12, considerado o mais pobre de todos. Ela vive apenas com sua mãe e sua irmã, sendo a única provedora da família, por meio da caça, que é ilegal. No dia da colheita (evento para a escolha dos tributos), o nome de sua irmã Prim é sorteado, e Katniss se oferece em seu lugar. Então a trama começa a se desenrolar.

Esperança é a única coisa mais forte que o medo. Um pouco de esperança é eficaz, muita esperança é perigoso. Faíscas são boas enquanto são contidas.” SNOW, Presidente

Considerando que se trata de uma história para adolescentes, Suzanne Collins merece os parabéns, afinal, a autora não se perde nos clichês do gênero, e, mesmo escrevendo do ponto de vista de uma personagem feminina, deixa o romance permear levemente a trama, fazendo com que nunca pareça forçado.

Katniss foge muito do padrão de protagonistas femininas, afinal temos dezenas de exemplos na literatura em que elas se deixam levar totalmente pelo amor que sentem por seu amante. Não estamos querendo eliminar aquele velho triângulo amoroso, mas aqui a autora não cai na mesmice de deixar que isso seja o centro da trama, e faz que a personagem soe mais verídica e racional.

jogos-vorazes

A escrita em primeira pessoa é crua, ágil e direta, não deixando de ser detalhada, pois, como primeiro livro de uma trilogia, Jogos Vorazes tem a obrigação de explicar muita coisa. Logo, a leitura torna-se simplesmente viciante, e já adianto que o desfecho foi mais que satisfatório, resolvendo a trama do livro e deixando muitos motivos para uma continuação.

Os personagens são um show à parte, particularmente Haymitch, que é engraçado, cínico e sincero. Peeta e Katniss formam um excelente casal principal. Talvez tenha me impressionado mais com eles devido a situação do “relacionamento” deles. Katniss, em alguns momentos, pode parecer um pouco frívola, mas nada que a torne detestável como personagem. Cinna e Effie merecem uma menção honrosa pela originalidade de cada um e por serem bons mesmo vivendo na Capital e abusando de suas futilidades.

Ambientando-se em uma distopia, a obra consegue mesmo assim parecer real. Todas as excentricidades da população da Capital pareceram a mim uma leve crítica à nossa geração, que nunca se contenta, sempre querendo se destacar.

Incrível como uma obra de ficção jovem consegue ser tão didática sem parecer forçada, afinal, as críticas aqui colocadas não são apenas para o âmbito social, existe uma enorme questão política no ar: impossível não comparar a Capital com os países desenvolvidos, os primeiros distritos com os países emergentes e os últimos com os subdesenvolvidos.

A história me prendeu tanto que não consegui parar de fazer comparações com a nossa sociedade, e adoro livros que me fazem refletir, principalmente sobre meus princípios.

Como um grande admirador de reality shows, a obra me fez repensar o porque de gostarmos desse tipo de programa. Será que se eu vivesse na Capital assistiria à adolescentes se matando e acharia divertido? Isso me fez pensar em como a mídia pode conseguir fazer uma lavagem cerebral, ditando até nossa forma de pensar.

A leitura é super recomendada; existe uma incrível e construtiva crítica político-social, as personagens, mesmo vivendo em uma realidade tão diferente da nossa, ainda conseguem nos causar empatia e, mais do que simpatizar, nós nos identificamos. Por meio da escrita crua e sincera da autora, nos colocamos na pele dessas personagens. O livro é ágil e surpreendente, nos fazendo pensar na história mesmo quando acabamos a leitura.

  • Importante ressaltar uma curiosidade, Panem é uma referência à política do pão e circo, muito utilizada no império romano.

Sobre o Autor

Avatar

BOXPOP

Site especializado em cultura pop, fundado em agosto de 2007. Confira nossos podcasts, vídeos no youtube e posts em redes sociais. Interessados em contribuir como autor no site podem entrar em contato: contato@boxpop.com.br

Deixe um comentário

clique para comentar

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

OUÇA O BOXCAST

VIDEOCAST

Lidio Mateus, o brazilian singer da internet, comenta todos os bafos e segredos de sua carreira.

Tem série nova na HBO e os bastidores dela foram recheados de TRETAS. A gente conta todas neste vídeo.

Esse é o filme que vai ganhar o Oscar de filme estrangeiro. Neste vídeo comentamos Parasite. Assista!

SEJA UM PADRINHO!

Contribua!

OUÇA ACABEI DE LER