Julieta, Sherlock Holmes, Emília e afins…

A questão começou a surgir em posts anteriores e culminou no comentário que eu fiz na semana passada. Defensores de uma tal liberdade criativa, começaram a usar isso como justificativa a fim de redimir qualquer porcaria que surja na TV com a mera desculpa de ser uma demonstração da criatividade de um autor. Chegarem ao ápice dizendo que a mente de um autor é uma fábrica viva de novas ideias e as páginas seriam apenas uma forma de conter tamanho jorro inventivo.

Peralá. Tem alguma coisa de errado nisso. Ainda mais quando tal acontecimento é transformado em uma série de TV, arrebatando milhões de fãs, ignorantes a respeito da fórmula original e louvando tal criação como se fossem as pedras inscritas pelo próprio Deus e dadas a Moisés. Cometem até mesmo a blasfêmia de dizerem que os jovens não precisam ler “Dom Casmurro”, que é chato e irrelevante (pobre Machado!) e louvam tais espertalhões como novos Shakespeares, arautos anunciando uma nova era literária e televisiva.

Bakhtin, discorrendo sobre o fenômeno popular da carnavalização, em seu livro “Dialogismo e polifonia”, escreveu: “Os preguiçosos devem parar de encontrar justificativa para sua leseira mental, parar de ler tanta porcaria, tomar vergonha na cara e encarar um Dostoievski para ver o que é bom pra tosse”. Pausa para refletir nessas sábias palavras.

remedio

A pedra mó de tal reflexão foram os vampiros. Defendo a ideia do vampiro clássico, bebedor de sangue humano, não frequentador da luz do dia por razões óbvias, sedutores, dotados de personalidade dúbia. O que diria, por exemplo, Bram Stocker ao ver a gurizada serelepe e pândega de The Vampire Diaries?

Ah, mas a L. J. Smith deu uma repaginada nos vampiros para as novas gerações. Na verdade, o que ela fez foi fazer uma coisa nova, aviadada e colocar o nome de vampiro. Se ela fosse tão criativa como dizem, teria produzido uma nova mitologia, com novos seres. E não pegado uma coisa boa que já existia, injetado uma boa dose de emocore e muito blá blá blá, jogando na lama séculos de tradições vampíricas. Não, Smith não é tão criativa assim.

bela-lugosi

Outro que está se revirando no caixão é Sir Arthur Conan Doyle. Seu personagem mais famoso é estrela de duas produções pra lá de duvidosas na TV. Elementary e Sherlock contextualizam o detetive para os dias de hoje. Meu Deus do céu, qual é o problema em ambientar a série no passado? Mas não. Sherlock tem que ser trazido para 2013. Elementary vai mais além. Retira Sherlock de Londres, o insere em Manhattan, transforma-o em um sujeitinho petulante, dependente químico recém-saído da reabilitação. E a maior das heresias: Watson passou por um processo de mudança de sexo e assumiu a forma de uma asiática sexy. Tá bom pra você? Sério que você acha mesmo isso genial?

House-and-Wilson

Mas nada justifica a lambança que estão fazendo com os contos de fadas. Grimm e Once upon a time que o digam. A primeira ainda é conseguiu fazer um mashup dos contos dos irmãos Grimm com uma pitada de Supernatural em uma procedural. O que não a isenta de ser uma pequena bomba que durou muito mais que o previsto.

Contudo, Once upon a time me lembra muito uma comida nordestina chamada rubacão (mistura de feijão de corda, arroz, bacon, linguiça calabresa, charque, queijo coalho, queijo mussarela, cebola, alho, louro, tomate) ou os virados que você faz no meio da noite quando está morrendo de fome, abre a geladeira, joga tudo o que tem dentro numa panela e leva ao fogo, mas com um resultado não tão saboroso.

O rubacão de Once upon a time joga no caldeirão contos dos irmãos Grimm, de Charles Perrault, de Andersen, de Charles Dickens e até de Mary Shelley, meu povo! Alguém envia um exemplar de Reinações de Narizinho e mostra como é que se faz um mashup literário, por favor! Não, melhor não enviar não. Se isso acontecer, acabam inserindo a Emília ou o Visconde de Sabugosa na história. Se bem que uma Emília vale mais que uma Mary Margaret, uma Emma e uma Aurora juntas. Sem contar que ela iria se juntar a essa turminha que adora uma confusão.

Monteiro Lobato

E se você já achou tudo isso um porre, a ABC Family vem aí com a tal da Julieta Imortal. Shakespeare, onde quer que você esteja, interceda por nós, seus leais súditos!

Olivia-Hussey-Julieta

E por hoje é só. Deixa eu ir ali terminar a minha leitura de Richard Yates antes que alguém decida fazer uma releitura que depois será transformada em série futuramente.

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