Madonna e a polêmica de Erotica

Erotica é um dos álbuns mais injustiçados e polêmicos da carreira da Rainha do Pop, mas também um de seus melhores.

Polêmico, transgressor, ousado, sensual e questionador. Erotica é tudo isso e muito mais, além de ser, de longe, um dos melhores álbuns da carreira de Madonna. Considerado o primeiro fracasso de sua carreira, o álbum acabou ofuscado em meio a tanta polêmica por conta do pacote sexual lançado por Madonna em 1992, que incluía o filme Corpo em Evidência, o álbum e, claro, o livro de fotografias Sex, onde Madonna mostra suas mais loucas fantasias sexuais. Para o mundo, ela tinha ido longe demais e aquele seria o fim de sua carreira, para os fãs, uma deusa do sexo em polvorosa, com sede de causar e polemizar.

Fato é que Erotica é um dos álbuns mais importantes da carreira de Madonna e um de seus melhores, contendo, diferente do que a maioria pensa, letras que falam sobre amor, término de relacionamentos e, acreditem se quiser, AIDS, além de sexo. Madonna foi pioneira em falar abertamente sobre AIDS, já quem 1992 a doença tinha estourado pelo mundo e muitos estavam com um ignorante e infeliz preconceito direcionado à comunidade LGBT, já que, na época, AIDS era conhecida como ‘’doença de gay’’. Triste, não?

Felizmente, Madonna sempre foi uma celebridade gay-friendly e deu a cara a tapa pela comunidade LGBT em uma época onde ninguém fazia isso, sempre defendendo, apoiando e dando visibilidade à comunidade. Sem dúvidas, ela merece aplausos, e nosso agradecimento, por sua luta por direito e igualdade para todos.

Com Erotica, Madonna mostrou ao mundo que sexo é bom, faz bem e que, é claro, pode-se falar abertamente e sem medo do assunto, além que de não existe problema em ter fetiches e ter a ousadia de realizá-los.

Confira a review do BOXPOP para o álbum mais polêmico da Rainha e entre nessa jornada sensual e libertadora.

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Erotica — Faixa-título que abre o álbum, aqui Madonna encarna a dominatrix Dita Parlo, inspirada na atriz de mesmo nome dos anos 30. Com voz sussurrante e gemidos, é ela que nos guiará por essa jornada de sexo e fetiches, sendo nossa anfitriã, e seu desejo é nos ‘’colocar em transe’’.

Ela pede para desistirmos e fazermos como ela mandar, além de dizer que existe certo prazer na dor, e que só quem nos machuca pode nos fazer sentir melhor e que apenas quem inflige a dor pode levá-la para longe, o que faz referencia as práticas de BDSM, que, inclusive, podem ser vistas no excelente clipe da música.

Interessante notar como a música é sexy, sensual e, como o próprio título diz, erótica, mas sem cair na vulgaridade. Com certeza esse foi um ponto positivo para Madonna, além da sonoridade crua, underground e deliciosa que permeia a música , a qual, felizmente, será vista em outras faixas do álbum. O clipe também merece destaque, contendo cenas de Madonna caracterizada como Dita (com direito a chicote e máscara) e cenas do making-of do livro Sex, possui uma atmosfera fetichista que é deliciosa de ver e ouvir, além de ser extremamente sensual e, claro, sexual, como a própria música.

‘’I’m not gonna hurt you, just close your eyes…’’

Fever — Melhor que a versão do clipe e gostosinha de ouvir, mas nada espetacular. Aqui, Madonna canta sobre amor e um desejo ardente, quando se está nos braços do amado ou beijando-o, o qual ela descreve como ‘’febre’’.

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Bye Bye Baby — ‘’Esta não é uma canção de amor’’, é assim que Madonna introduz a música, a qual fala sobre o fim de um relacionamento. Ela está cansada de esperar seu parceiro, dele dizer que a ama e a quer, mas nunca estar junto dela e a fazer chorar. Música deliciosa de ouvir e que pode ser vista como a Express Yourself do Erotica, pois também é um hino feminista ao mostrar que ela não precisa de homem nenhum e pode terminar um relacionamento. Lembram que eu disse de uma sonoridade crua? Pois bem, ela se faz presente aqui com os vocais de Madonna filtrados.

Deeper and Deeper — A mais dance do álbum e é, praticamente, a Vogue do Erotica, mesmo que Madonna, durante a produção do álbum, tenha dito para Shep Pettibone que não procurava fazer uma nova Vogue, pois não se repete uma coisa, por mais que ela seja incrível e faça enorme sucesso. Deliciosa de ouvir, tem um estilo bem club e é fácil imaginar milhares de pessoas dançando ao som desse hino nas boates ao redor do mundo em 1992. Madonna canta sobre como está apaixonada e que este sentimento é inexplicável, o que a faz ir cada vez mais fundo. A produção da faixa também é interessante, pois Madonna insistiu em inserir uma guitarra flamenca na música e não estava conseguindo, mas, como todos sabem, Madonna sempre consegue o que quer e o resultado você pode conferir ao ouvir a música.

Where Life Begins — Música com um toque classudo e sensual, dizem que a letra é uma metáfora para sexo oral. É gostosa de ouvir em conjunto com o álbum, mas, infelizmente, não é um dos destaques.

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Bad Girl — De longe, está é uma das melhores músicas do álbum e, provavelmente, uma das melhores da carreira de Madonna. Uma pena que tenha sido cantada ao vivo uma única vez (no Saturday Night Live, em 1993). Madonna canta sobre uma mulher que, infeliz por terminar um relacionamento e não saber como seguir em frente, se esconde atrás de bebidas, cigarros e sexo com estranhos, na tentativa de se libertar da dor e não se sentir triste. O clipe, definitivamente um dos melhores da carreira de Madonna, é maravilhoso, parecendo que foi feito com cenas de algum filme estrelado por ela. Ao lado de Christopher Walken, que interpreta um anjo da morte, Madonna encarna Louise Oriole, executiva de Nova York que sai todas as noites com homens estranhos e que, infelizmente, encontra seu destino na mão de um deles. Vale lembrar que o clipe é baseado no livro/filme De Bar em Bar — À Procura de Mr. Goodbar, lançado em 1977 e estrelado por Diane Keaton e, um ainda jovem, Richard Gere. A história é basicamente a mesma, com a diferença de que filme e livro mostram um complexo que a personagem principal tem e procura dominar ao fazer sexo com estranhos.

Waiting — Fraca e com sonoridade mais classuda. Aqui, Madonna canta sobre como seu amado a deixa de lado e que, independente do que ele faça, ela ainda o ama, mesmo sabendo desde o início que ele iria machucá-la.

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Thief of Hearts — Música para as fura-olho, começa com o sugestivo som de uma garrafa quebrando. A sonoridade é bem dance e crua, e a letra é inteligente, falando sobre o crime que é roubar o amado de outra pessoa, além de questionar o que é preciso para que isso aconteça. Madonna afirma que a ‘’ladra de corações’’ deve pagar pelo que fez, dizendo que ela se faz de amiga apenas para apunhalar a outra pelas costas, pois pensa que pode ter o que quiser, incluindo o namorado da amiga.

Words — Mais uma letra inteligente, aqui, Madonna fala sobre as palavras tem poder e podem ser más. Ela canta que seu homem se acha muito esperto e escreve lindas cartas, tentando manipulá-la e que se acha melhor do que ela, mas que as atitudes dele falam mais alto do que as palavras, além de ser propenso a fazer promessas e quebrá-las. Bem dance, mas o destaque fica para a bridge (ponte) já que é onde a música desacelera e toma um ritmo mais lento, delicioso de ouvir, no qual Madonna canta sobre como os amigos tentaram avisá-la de que, embora o cara seja romântico e tenha boas maneiras, ele iria apenas deixá-la triste, e como ela poderia explicar e como eles saberiam de que ela estava apaixonada por ele e por suas palavras.

Rain — Um dos destaques do álbum, tem um clipe igualmente ótimo e rendeu uma bela performance na turnê The Girlie Show. Fala sobre amor, como Madonna ficará ‘’no topo da montanha’’ até que a chuva venha até ela, e como o amor, assim como a chuva, levará embora toda a dor e tristeza. Uma das melhores músicas da carreira, sem dúvidas.

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Why’s It So Hard — Um verdadeiro questionamento ao preconceito, Madonna questiona a sociedade do porque ser tão difícil amarmos uns aos outros, sem ver gênero ou sexualidade, além de perguntar o que é preciso fazer para ser aceito por aqueles que nos julgam. Como todos sabem, Madonna sempre foi e ainda é uma celebridade gay-friendly, sempre defendendo e dando apoio e visibilidade a comunidade LGBT, desde o início de sua carreira e, aqui, cansada de ver tanta dor e preconceito, ela questiona o porquê disso e nos diz para mostramos, celebrarmos e compartilharmos nosso amor, mostrando aos outros que não há absolutamente nada errado em ser ‘’diferente’’. Embora tenha sido lançada em 1992, a música continua atual, pelo triste motivo de ainda existir muita ignorância e preconceito enraizados na sociedade. Resta esperar e torcer para que um dia isso mude e, como Madonna diz na canção, possamos amar uns aos outros.

In This Life — Música dedicada a dois amigos de Madonna e que, infelizmente, faleceram devido a AIDS. A música mais triste do álbum, sem sombra de dúvidas, e rendeu uma performance bela e tocante na turnê The Girlie Show, onde Madonna diz que a música é dedicada a estes dois amigos e que as pessoas do público conhecem ou irão conhecer alguém que tem AIDS, a grande tragédia do século 21, além de pedir para que quem sofre da doença não desista. Simplesmente lindo. Na canção, Madonna canta sobre como pensa em seu amigo, que era como um pai para ela e partiu muito antes do momento certo, além de não dizer nada aos amigos pois não queria vê-los chorar, e como ela não teve a chance de se despedir dele. Além disso, ela canta sobre como vê as pessoas passarem e imagina quem será o próximo e se há uma lição para aprender, além de rezar para que, um dia, o preconceito acabe.

Assim como na performance da turnê, Madonna deixa na música uma linda mensagem: Ignorance is not bliss (Ignorancia não é glória/felicidade).

Did You Do It? — A bomba do album e que, felizmente, está inclusa apenas na versão do álbum com o selo Parental Advisory na capa. Pode ser definida como, na linguagem dos memes, ‘’ce num tinha nem que tá aqui, linda’’. Tem sample de Waiting, mas não é cantada por Madonna. Descartável e poderia ter dado lugar a alguma música das famosas Rain Tapes, como Goodbye To Innocence.

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Secret Garden — Música de encerramento do álbum e bem gostosa de ouvir, principalmente se for em conjunto com o álbum. Tem um toque bem sofisticado e sexy, o que não poderia deixar de existir, levando em conta que, supostamente, a música fala sobre a vagina da própria Madonna. Excelente encerramento para um dos melhores álbuns da carreira de Madonna, o qual fica ao lado de Like a Prayer em um top 3 ou top 5 dos melhores álbuns.

Polêmico e ousado, mas também libertador, é assim que se pode definir Erotica. Muitos pensaram que este seria o fim da carreira de Madonna, mas estavam redondamente enganados. Sempre contestadora, ela não teve medo de explorar seus desejos e falar sobre assuntos que eram, muito mais do que hoje, tabus na época. Erotica também pode ser visto como um grito de liberdade, mostrando que você não precisa esconder quem você é e seus desejos. Mostrando aos hipócritas que pode, sim, conversar sobre sexo e fetiches e que não tem nada de errado nisso.

Um dos álbuns mais injustiçados e polêmicos da carreira de Madonna, mas também um de seus melhores. Cultuado pelo fãs com o passar dos anos e, sem dúvidas, tem seu lugar em um top 3 ou 5 da carreira da Rainha.

E você, o que acha do álbum? Deixe sua resposta nos comentários, ‘’give it up, do as I say’’

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Capa controversa proposta por Madonna, originalmente, mas vetada pela Warner por considerarem sensual demais.

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