Manual prático de como não ser Otaviano Costa

Criamos um manual simples de entender sobre como não ser transfóbico — ou preconceituoso em geral — inspirado em Otaviano Costa.

Nem bem acabamos de discutir sobre os comentários preconceituosos de Patrícia Abravanel (e todo o elenco) exibidos no último domingo durante o Programa Silvio Santos e outro apresentador da TV brasileira protagoniza cenas de desrespeito contra alguma classe oprimida da sociedade. Desta vez, a vítima foi a dignidade das travestis.

Durante o Vídeo Show da última terça-feira o apresentador se referiu às travestis usando o termo traveco que, caso não saibam, é bem pejorativo, porque nele está implícito inferioridade (tipo em timeco). Sem contar que o contexto da piada reforçava a visão de que travestis são inferiores às mulheres.

Sem surpresa alguma, a reação veio de imediato (ainda bem!), e Otaviano fez aquilo que era de se esperar quando alguém é preconceituoso publicamente: se fez de vítima. Claro que nesse mundo de relações públicas o apresentador precisou se retratar e no dia seguinte publicou um vídeo que causou mais estragos do que reparação.

Ao invés de apenas pedir desculpas, Otaviano reclamou da repercussão e criticou a reação das pessoas como se fosse inadequada para a militância para o fim do preconceito. Não suficiente, o apresentador publicou uma foto de uma personagem que interpretou em uma novela como forma de se eximir de ter sido preconceituoso (foto que ele apagou logo em seguida), porém, a foto e o texto revelam ainda mais preconceito (e falta de bom senso) ao fazer um jogo de palavras com o termo “trans”.

Fica claro que Otaviano Costa precisa de leitura. Então vamos seguir seu conselho de não militarmos de forma “violenta” e vamos educar com informação. Por isso preparamos um manual prático de como não ser Otaviano Costa na vida. Uma edição comentada e revisada não autorizada, porque não precisamos pedir autorização.

Não diga traveco

Já dissemos isso no texto acima, mas vale reforçar que o termo é uma forma de falar sobre as travestis e as transexuais de forma diminutiva. Elas são mulheres e merecem ter a identidade respeitada.

Acerte os pronomes

Outro erro comumente cometido é sobre os pronomes que se referem às transexuais. Não falamos o transexual quando é A transexual. Usar o pronome masculino ao se referir a uma mulher transexual é negar sua identidade.

Não diminua a situação dizendo que era só uma piada

Afinal, o incômodo de ninguém é risível. Dizer que seu preconceito foi só piada é um ato covarde e imaturo. Sejamos melhor que isso, aprendendo a assumir a culpa pelos nossos erros e tendo que lidar com as consequências.

Não reclame das reações “violentas”

É comum que quem comete um ato preconceituoso reclame da reação enérgica sobre o ocorrido. Isso acaba virando uma tentativa de diminuir o dano causado por quem foi preconceituoso e inverte a situação, retratando as vítimas como agressores. Entenda que preconceito é violência e ninguém leva na cara e explica com calma sua dor.

Entenda que preconceito é livre de intenção

Muitas das pessoas que tentaram defender Otaviano usaram sua participação no programa Amor e Sexo como justificativa. Isso é o mesmo que dizer “não sou preconceituoso, até tenho amigos que…”. Estar no meio de homossexuais e transexuais e tratá-los normalmente é o mínimo exigido de qualquer ser humano decente. E só isso. É possível ser preconceituoso sem de fato ter intenção de ser. Há uma diferença enorme entre um Bolsonaro da vida e um Otaviano Costa. Para ser preconceituoso basta tratar alguém de forma inferior ou desrespeitosa. E acima de tudo, ausência de intenção não exime ninguém de responsabilidade pelos atos cometidos.

Reconheça o erro e procure melhorar

Qualquer situação como essa pode ser resolvida de forma rápida e sem danos posteriores se a pessoa que cometeu o ato falho tiver uma postura humilde para assumir o erro. É só isso que precisa. É tudo que basta. Pedir desculpas é sobre reconhecer o dano causado no outro, e reconhecimento é cura.

Não poste fotos vestido de mulher como argumento

Na mesma linha do “não sou preconceituoso, mas…” postar uma foto vestido de mulher não limpa a ficha de preconceitos de ninguém, muito pelo contrário, até piora. Um homem que se veste de mulher para algum trabalho faz drag. Drag é um acrônimo para Dressed as a Girl que teve origem nas peças de Shakespeare quando homens interpretavam papeis femininos porque não eram permitidos que mulheres atuassem. Isso é bem diferente de ser uma mulher transexual. Ser uma mulher transexual é sobre a identidade dela. Otaviano Costa não é mulher mesmo se estiver de saia interpretando um papel feminino, porque ele não se identifica como uma. E dizer que se vestir de mulher te impede de ser transfóbico também é dizer que mulheres transexuais são homens vestidos de mulher, o que justamente nega sua identidade.

Não sabe? Pesquise

Informação é essencial para a quebra de preconceitos. Procure ouvir (ênfase no verbo ouvir) sobre experiências de realidades que você não vive e entenda suas dores para ao menos ter mais cuidado com o que propagamos por aí. Muitos dos preconceitos que temos são passados de geração como algo comum (ex: não sou tuas nega) e é nosso papel demolirmos eles através de conhecimento.

Um resumo pra quem tem preguiça de ler

O mais importante é termos em mente que nós que não somos transexuais não podemos ditar como uma pessoa transexual deve agir quando ofendida. Como pessoas cissexuais (aquelas que estão de acordo com o sexo designado ao nascer) nós nunca estaremos no lugar delas pra sentir suas dores, nem que tenhamos alguém para relatar como é. Não roubemos uma vivência que não é nossa.

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