Nós precisamos de Watchmen?

Nova série da HBO chega em momento necessário, com fértil cenário político.

O filme Watchmen (2009) surgiu quando o cinema de herói se restabelecia. Chega na na onda de SinCity (2005) e bebe muito dali, tanto em sua narrativa quanto em sobriedade. Estes elementos também definem outra obra do “gênero”: O Cavaleiro das Trevas (2008), que ditará o caminho inicial para a DC, e O Homem de Ferro (2008), que iniciaria o Universo Cinematográfico da Marvel.

Zack Snyder é o diretor de Watchmen e conquistou espaço com o longa. Mas esta história não é dele. É de uma mente ainda mais brilhante, crítica e indagadora, Ana Moore.

Esta história de Alan Moore percorre o século XX e está no seu cerne, como se fosse Berlim no nosso mundo. Afinal, todo o século XX aconteceu ao redor de Berlim. Mas nesta outra versão do planeta Terra, um grupo de heróis surge no final da Segunda Guerra para estabelecer a ordem sobre o caos. Não fosse um herói em particular.

O tempo passa e o grupo de heróis vigilantes (por isso o nome Watchmen) ganha uma nova formação. Porém, logo este novo grupo é aposentado pelo Presidente dos EUA, que vende uma imagem deturpada deles, mais alinhada com seus interesses políticos. A identidade dos heróis é mantida sob segredo e seus mantos são pendurados no cabide.

Watchmen é uma trama com enredo conspiratório que aponta o líder máximo dos EUA como um desserviço ao estado. É uma crítica. O contexto é parecido com o de Trump hoje em dia, e as teorias de que ele foi eleito por interferência russa.

Não apenas estas polêmicas enriquecem uma nova empreitada de Watchmen como paralelo ao nosso mundo real. O clima polarizado é global e assuntos delicados são tratados com profundidade rasa e demandam da arte todas as possibilidades que podem ser vislumbradas.

A justiça pelas próprias mãos é o caminho? Delegar decisões importantes a uma casta é a solução? A democracia é capaz de se manter por si só? Tudo isso se torna referência para a nova Watchmen da HBO, pois tudo isso está no cerne da história original.

A história original fala de decadência, traumas de infância, estupro e de maneira velada, mas não menos crítica, até sobre homossexualidade. Muitos negam que ele esteja ali, mas está e esta é a verdadeira crítica. Mostra a hipocrisia da indústria e de certa maneira até de alguns leitores. Critica através da metalinguagem. Filosofa sobre a guerra, poder nuclear, passagem do tempo, realidades paralelas etc.

Distorce conceitos, quebra dogmas. E subverte.

O relógio do fim do mundo, ou o Doomsday Clock, é a linha guia de todo o conflito. O relógio simbólico que existe em nosso planeta verdadeiro e no criado por Alan Moore representa a eminência de uma guerra nuclear na Terra. Marca minutos antes da meia noite, sendo meia noite o fim do mundo. Acontecimentos fazem os ponteiros avançar. Quando Trump assumiu, avançaram-SE 30 segundos.

Tendo um relógio como ícone e a filosofia sobre o tempo como pano de fundo, a história é contada a partir das memórias que os personagens têm d’O Comediante, a peça que move o jogo, o herói que é anti-herói. Assim, a história vai e volta, como um pêndulo. O comediante é morto no início de filme e não se sabe quem é o assassino. Cabe aos heróis desajustados investigar, e a partir disso vemos que eles são mais humanos que qualquer um de nós.

Os personagens

Rorscharch é um sociopata. Nesta história ele é quem busca pela verdade no papel de detetive, uma homenagem a quadrinhos noir investigativos que fizeram surgir a DeteCtive Comics. Hoje conhecida como DC. 

Esta criança traumatizada pela violência doméstica cresceu como poderíamos imaginar, desajustado. mas de alguma maneira ele se torna um vigilante e caça vilões. A visão de Alan Moore sobre heróis num mundo como o nosso é exatamente esta. Apenas uma mente insana, que vive numa situação de merda e com poucos recursos se ofereceria a este trabalho. Para ele não há nada de heróico em ser herói. É desespero. É desconforto. É insatisfação. Bruce Wayne jamais existiria em sua anti-séptica batcaverna.

Comediante já comentei, é um herói que na verdade é um anti-herói. Ele faz serviço sujo por debaixo do pano. Ele matou JFK, logo após o até então Presidente dos EUA publicamente cumprimentar o Dr. Manhathan numa espécie de pacto entre o homem azul e toda a nação. Também era o comediante o encarregado de fazer os EUA perder a guerra do Vietnã. Mas nesta realidade isso não acontece. Dr. Manhathan estava lá para encerrar o conflito em algumas semanas.

Dr. Manhathan é uma crítica ao divino. O jovem fisicista que virou a maior arma na Terra em um acidente nuclear que mudou tudo. Agora ele navega pelo espaço/tempo, seu tempo. Com tantos estímulos, nada parece tão interessante quando a natureza humana. Ele poderia interferir em todo o curso da história ao seu redor, mas não. Nem nos piores momentos, como quando uma mulher grávida é assassinada em sua frente.

Que Deus é este que não impede tamanha atrocidade? É um Deus que não interfere no livre-arbítrio ou é um Deus sádico, que não se importa com algo tão pequeno diante de tudo que Ele enxerga?

E novamente o relógio vem pontuar a trama, com Alan Morre lembrando que o tempo está passando e o fim está próximo. Dr. Manhathan antes era filho de um relojoeiro que abandonou o trabalho quando Einstein anunciou que o tempo é relativo.

Manhathan tem esse nome por conta dos testes nucleares do Projeto Manhathan.

Seu maior conflito seria o relacionamento com Laurie, mas sabemos que na verdade é seu relacionamento com toda a Terra. Isso mostra a magnitude do personagem.

Laurie é filha de Sally Júpiter, criança famosa filha de heroína famosa. Nasceu para ser vigilante. Não compreende tudo que Dr. Manhathan significa e busca nele o pai que nunca teve. Manhthan é muito para ela, que quer pouco. Ela só que algo humano. Mas quando tem algo humano, não se satisfaz.

Laurie é ao mesmo tempo uma crítica ao divino quando Alan Moore subverte o significado de um milagre. O Deus da ciência não compreende este conceito até descobrir que Laurie é filha do homem que tentou estuprar a mãe dela, mas que nasceu do amor de sua mãe por este mesmo homem – o Comediante. É um milagre das probabilidades.

E subverte, pois o mais transparente dos heróis era o vilão.

E aqui o vilão representa o capitalismo, os conglomerados, a mídia. Ozymandias é a pessoa mais inteligente da Terra, capaz até de manipular o ser mais próximo da divindade, Dr. Manhathan. Ozy é o único herói Que revelou sua identidade, porém vive sob diversos segredos. Entre eles, seu plano de salvar o mundo matando bilhões e a repressão de sua sexualidade. Nada é o que parece.

Através dele Moore representa sua visão sobre a mídia de massa. Essa mídia é uma arma nas mãos de Ozy, o capitalismo. É icônica a cena na qual Ozy segura um controle remoto e o define como uma arma letal.

Ainda assim em Watchmen, é o vilão que salva a Terra da guerra fria. Seu plano dá certo, mas há um sacrifício: o exílio de Dr. Manhtahan. Os EUA e a URSS, maiores nações do mundo, eliminam um inimigo em comum. 

Nos resta o enfadonho Buhú Nocturno, um saudosista minguado que acredita no bem, acredita que os heróis faziam algo positivo, mas acata as novas regras sem questionar e se vê de maneira passiva diante do plano mais diabólico já colocado em prática.

Watchmen é uma visão pessimista do nosso planeta, uma realidade na qual tudo deu certo, mas não deu.

Sobre o Autor

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Caio Fochetto

Fundador do site BOXPOP, profissional de mídia e comunicação com experiência em TV aberta, TV paga, portal web e rádio. Potterhead sonserino com muito orgulho e apaixonado por cultura pop.

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