Precisamos falar sobre Sansa Stark

Ou… aqueles diversos tons de Sansa Stark

Aviso: O texto a seguir tem spoilers de todas as temporadas de Game of Thrones

O sucesso de Game of Thrones está em seus personagens. Cada um construído em uma paleta de cores característica. Distanciando-se do maniqueísmo ou da infalibilidade de julgamento e caráter, cada um tem suas ações justificadas por suas crenças e desejos. Mas se existe uma personagem que sempre esteve no centro de polêmicas, é Sansa Stark.

O que chama a atenção, desde a batalha épica exibida no último domingo, é a forma como a audiência vem tratando a jornada da filha mais velha dos Stark. Se a série (na figura dos roteiristas) é acusada de ser sexista, o público não fica muito atrás em julgar uma personagem feminina que vem transformando-se, sem a intervenção direta de uma figura masculina — mesmo Daenerys fortaleceu-se após o auxílio de Khal Drogo, por exemplo e as demais, já surgiram na saga com suas características mais marcantes.

Sim, Sansa teve ajuda, precisou ser protegida, todos sabemos disso. Mas sua evolução propriamente dita veio do sofrimento e da observação do jogo. De ‘sonsa’ à psicopata, sua trajetória tem sido uma das mais lentas em toda a saga. Foram seis temporadas (e muitos xingamentos) para que aquela menina mimada retornasse ao seu lar enquanto herdeira de direito. E ao longo desse tempo, as opiniões sobre ela sempre foram muito firmes.

“Sansa mimada”: Sansa começa sua jornada em tons de rosa. Imagine-se viver no seio de uma família amorosa. Com pais que, mesmo após um casamento arranjado, conseguiam nutrir profundo amor e respeito um pelo outro. Criada acreditando que aquilo que vivia em seu lar seria a regra no mundo. É possível, realmente, julgá-la por acreditar, inicialmente, na ideia de uma realeza nobre? As consequências de seus muitos erros não demoraram a aparecer. O que leva ao segundo tipo de xingamento por parte do público…

“Sansa fraca”: Em tons de um rosa mais pálido, ela percebe que falhou. Assim como seu pai. Assim como sua mãe. Assim como Robert. Ou como Danerys (e poderíamos citar todos os personagens). E como consequência, passou a sofrer abusos emocionais e físicos. E quantas vezes os fóruns foram recheados de pessoas comemorando a cada vez que ela se dava mal? Dizendo que ela tinha pedido por isso?

Enquanto acusávamos a série de abusar de figuras femininas que apareciam nuas sem justificativa, o público dizia “bem feito Sansa, quem mandou ser burra?”.

Por baixo das lágrimas, aqueles foram momentos onde a personagem começou a aprender sobre o jogo, através dos exemplos da Cersei, bem como os conselhos do Cão de Caça e de Margaery.

“Sansa burra”. Praticamente sem personalidade, sem cores… Burra por confiar no Mindinho (tal como seu pai o fizera), por ignorar a natureza manipuladora dele. Mas ela já havia aprendido que observar é a melhor forma de aprender. E ela observou Mindinho, aprendeu suas fraquezas. E ensaiou uma volta por cima… Pena que não demorou muito. Afinal, como aprendiz que era, foi usada mais uma vez como joguete e acabou voltando para seu lar… Desta vez, como escrava.

“Sansa coitada”: O estupro da personagem foi realmente necessário para a evolução da história? Tanto já foi discutido… Talvez tenha sido a primeira vez em que a audiência tenha olhado para a personagem com compaixão. Mas considerando que a violência fez parte da trama (e, enquanto público, não podemos fazer nada sobre isso). Xingar a personagem de fraqueza ou descaracterização, mais uma vez, mostra como a audiência ignora o sofrimento e a sensação de impotência que sente alguém vítima de abuso físico.

“Sansa psicopata”: Quantos julgamentos choveram nos fóruns essa semana. Chamam de psicopata por ser fria diante da morte de seu irmão caçula. De burra por ter escondido do Jon o trunfo dos Cavaleiros do Vale. De inconsequente, por, primeiramente ter incitado o ataque, esquecendo-se de que ela ainda confiava nas tradições e lealdade do Norte (que parece sofrer de memória seletiva). E depois de covarde por tentar alertar Jon sobre os jogos de Ramsey. A culpam pelo quase fracasso da batalha, mas esquecem da arrogância de Jon ao ignorar os avisos. A culpam por ter escondido o pedido pelos cavaleiros do Vale. Esquecem que quando ela falou sobre precisarem de mais homens, John praticamente a ignorou.

Dizem que é uma personagem descaracterizada por simplesmente ter assistido a morte do homem que a abusou. Esquecem da frieza com que seu pai executava traidores, sem investigar a verdade por trás de suas mensagens. Esquecendo-se também de toda a trajetória que ela viveu, da crueldade que presenciou desde Porto Real. Ignorando também e que, certamente, também a estariam xingando se ela tivesse permanecido em seus tons de rosa pink.

O que diferencia a Sansa da primeira temporada da que vimos em Battle of Bastards, não é a ideia de infalibilidade. Finalmente, a personagem está podendo tomar decisões por si mesma, diante de suas próprias análises do tabuleiro. Chegou o momento em que Sansa Stark pode sim, vir a pagar caro por sua escolhas. Mas o que lhe acontecer será fruto do que ela fez, não das decisões tomadas por outra pessoa. Isso demonstra sua evolução na trama.

O mais legal da história do tio Martin é que nenhum personagem é infalível ou completamente bom ou ruim (talvez somente Joffrey, Ramsey e o Montanha tenham sido descritos com uma marca de maldade tão firme…). São personagens que alternam cores de acordo com seu momento na história. Assim como somos nós, na vida real.

Talvez Sansa tenha sido a personagem feminina que mais tenha mudado desde o início. Arya sempre teve a personalidade rebelde. Margaery já apareceu manipulando situações para atingir aos seus objetivos. Catelyn sempre teve a postura altiva, enquanto Cersei sempre foi arrogante em seu “sangue dourado”. Yara sempre foi guerreira. Daenerys sempre teve certeza de seu destino, mas Sansa foi tomando consciência dele. Errando e aprendendo. Tornando-se uma jogadora, cujas apostas podem leva-la um final vitorioso ou não. Seu destino tão incerto, quanto todos os outros personagens.

Apesar de parecer, isto não é uma mera defesa da personagem. Mas um passeio por sua jornada para mostrar que, apesar de acusarmos os roteiristas da série de sexismo (embora haja vários exemplos disso, impossíveis de se negar), nossos julgamentos podem ser venenosos na mesma medida. O mesmo dedo que apontamos para Sansa, levamos para nossa vida real, para aquela moça, que não conhecemos, mas que, ignorando seu passado ou motivações, acusamos, acreditando saber o caminho que lhe é mais correto.

Talvez, Sansa seja, em Game of Thrones, aquela que está mais próxima de nós. E a ficção pode ser um ponto de reflexão sobre atitudes que, muitas vezes, replicamos sem perceber.

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