The After: Chris Carter ataca novamente

– O que está acontecendo? — GENERAU, Gigi
– Não sei! Ninguém sabe!” — POLICIAL

A vida de criador de séries não deve ser muito fácil. Vai lá, emplaca um sucesso e esperam que tudo aquilo que tocar seja ouro. Mas a gente sabe que não é bem assim e com Chris Carter não foi diferente, afinal ele é o criador de Arquivo X, série que inaugurou o gênero de mistério e mitologia na TV. E exatamente com uma expectativa bem alta surge The After, sua nova série. Apenas de ter seu nome ali, o piloto já chama muita gente para ao menos dar uma olhadinha. Se bem que a série não teve uma forte divulgação, muita gente apenas sabia que ele estava fazendo uma nova série e por assim ficou. Agora, finalmente, a Amazon liberou o episódio piloto e, se der audiência, vai continuar.

A série tem tudo para se consagrar no gênero e para Carter recolocar seu nome em um lugar de privilégio. Claro, a série não é perfeita, tem seus defeitos e alguns deslizes doloridos. Mas, se pesar o que foi bom com o que foi ruim, The After tem a faca e queijo na mão para figurar em um lugar de destaque.

Mas vamos em partes porque, para um piloto, foram muitas informações e muito a ser dito. Primeiro, o roteiro. Para quem ainda não sabe, o ponto de partida da série é um evento catastrófico que ninguém sabe o que é. Gigi fica presa em um prédio junto do restante do elenco e somente no meio do episódio vislumbramos a cidade em total pânico. As cenas neste episódio foram confusas, caóticas e casou muito bem com o que queria mostrar: o próprio caos. Humanos já são criaturas que têm um medo irracional daquilo que não conhecem, nessa situação a coisa só fica pior.

The After - 1x1

Gigi está longe do marido e da pequena filha sem nenhum meio de ao menos falar com eles, o que deixa tudo ainda mais agoniante. Pessoas correm para todos os lados, coisas explodem, sons estranhos. Em uma situação destas é estranho que as pessoas ali não surtaram ainda mais.

Uma coisa a se pensar é sobre este evento. Até a cena final do piloto, tudo levava a crer que absolutamente nada tinha acontecido. Exatamente, que não se tratava de uma catástrofe de fato, mas um surto coletivo. Acompanhe o raciocínio: o desespero e o caos são contagiantes. Para que Gigi surtasse na batatinha e até mesmo ameaçasse pessoas só foi preciso cortar a comunicação dela com sua filha. É preciso tão pouco para fazer com que humanos quebrem, vamos chamar assim, o pacto social e saiam às ruas gritando, roubando e matando. Para quem conhece, é aquela velha teoria da Janela Quebrada. Use o Google caso queira conhecê-la.

No âmbito dos personagens, é onde os deslizes começam. Escalaram um elenco fraco para uma série de tamanho potencial. A própria protagonista (Louise Monot) não é tão boa atriz assim. Aquela cena em que ela faz a audição para um papel é simplesmente bizarra. Não sabia se era uma boa atriz interpretando um personagem que não era boa atriz ou se era tudo uma atuação bem fraca. Em alguns momentos dá pra pensar que seja a primeira opção, mas em muitos do resto chega a dar medo. Fora o sotaque exageradamente carregado que ela e McCormik têm, tenho dó de quem assistir sem legendas. Mas isto são apenas detalhes.

Talvez o único que se destaca com a atuação ali seja Adrian Pasdar, que todos bem conhecem de Heroes. O restante do elenco não faz muita força, mas seus personagens são interessantes: um palhaço triste e gay, um irlandês bêbado, uma prostituta de luxo, um advogado que acha que tem lábia, uma velha solitária e muito rica, a policial que se acha moralmente superior e o assassino supostamente acusado injustamente. Já é uma leva de personagens bem mais interessante que muita série apocalíptica por aí.

Uma coisa que pode deixar os personagens estranhos para alguns que assistirem é sua irracionalidade. Todos fizeram escolhas bem porcas ao longo do episódio, seja em atirar em alguém que corria, seja assumir uma moral estranha e optar por desconhecidos ao invés da filha, por aí vai. Mas em meio ao caos, quem consegue ser racional?

Metade do episódio foi uma mera introdução ao que está acontecendo e os personagens. Ficar preso na garagem serviu muito bem para que o espectador conhecesse primeiro os personagens e então visse em que situação terrível eles estão. Com o fim desta parte, finalmente vislumbramos a série tomar forma em seus mistérios e, com uma força descomunal, fisgar a atenção de quem assiste. Introduzir mistérios e dezenas de perguntas assim logo de cara é uma coisa bem arriscada. Depois de Lost, vimos este gênero se esgotar em séries que apenas se preocupavam em criar situações confusas e inundar o espectador de mistérios, sem se importar se algo fazia sentido e sem investir no resto do roteiro.

The After - 1x1 b

The After vai na direção contrária, primeiro investindo no resto e então inundando com perguntas. E isto instiga ainda mais o espectador, já que de cara ele cria certa ligação com os personagens e suas histórias antes de ter a cabeça estourada em milhões de perguntas. Fora o fato de que a série introduz seus mistérios com uma maestria incrível, apenas preparando o terreno, dando pequenos detalhes e então, só na última cena, dá um soco na cara do espectador, deixando uma sensação de ansiedade extrema pelo próximo episódio.

O primeiro grande mistério da série são os aniversários e como Gigi falou com a filha sendo que o sistema de comunicação não funcionava mais. Fora McCormick, que não disse, todos nasceram no dia 7 de março. Coincidência forte demais pra ser só uma coincidência. Mas nada supera a criatura da floresta. Ela tinha a mesma tatuagem que McCormick (uma Ouroboros) e Tammy (o triplo 8). Para quem não conhece, Ouroboros é um símbolo de uma serpente mordendo o próprio rabo e tem um significado de infinito, ciclos de destruição e criação além da perpétua evolução (e outros também). E, pasmem, o triplo 8 tem significado semelhante nas culturas asiáticas. Fora que a criatura parecia dizer algo ao contrário, quem entendeu ou percebeu algum outro detalhe, deixa aí nos comentários.

Em suma, The After é boa e tem tudo pra ser uma coisa fascinante. Mesmo com um elenco fraco, com o tempo isso pode se resolver com um roteiro tão interessante como esteve no piloto. O jeito é torcer para série ser aprovada para continuar. Afinal, a carreira de Chris Carter também precisa de um novo acerto.

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