Veja 6 novelas incompreendidas pelo público

Embora com excelentes propostas, elas enfrentaram resistência e acabaram como novelas incompreendidas pelo público.

Ninguém pode negar a força que as novelas brasileiras sempre tiveram. Afinal, há muitas décadas, elas continuam como um dos programas mais assistidos pelos brasileiros, chegando em muitas partes do mundo. Embora cheias de boas intenções, algumas tramas passaram desapercebidas — obrigado, Saruê! — pelo público e têm a fama de novelas incompreendidas pelo público. Em alguns casos, uma falha na direção, ou em outros, um ruído entre autor e audiência, o resultado foi comum a todos: o pessoal de casa não entendeu as reais pretensões e o casamento entre realizadores e espectadores não vingou.

Um exemplo desses desencontros entre a opinião do público e da produção da novela é em Velho Chico.

Os noveleiros de plantão sabem muito bem que os bastidores de Velho Chico correm contra o tempo para arrumar a casa e realizar as mudanças necessárias, de olho na queda de audiência que a novela vem sofrendo desde a estreia.

É que o grupo de discussão realizado pela Globo apontou que aguardava uma novela rural, ao invés da pegada mais alternativa proposta por Luiz Fernando Carvalho. Além disso, as pesquisas apontam para a necessidade de mais ritmo e mais romances, assim como um figurino mais adequado aos dias atuais, deixando claro a época exata que a novela se passa.

Pensando nas diferenças entre as opiniões, o BOXPOP fez uma lista com 6 novelas incompreendidas pelo público.

Força de um Desejo (1999)

Até hoje, muitos profissionais da Globo são unânimes em apontar o alto nível de qualidade de Força de um Desejo. Em depoimento para o livro Autores, do projeto Memória Globo, Gilberto Braga, embora suspeito por ser autor titular, reconhece que a novela tem um bom nível de ação, ou seja, sem muitas barrigas ou aqueles diálogos que viram um verdadeiro bate-papo e parece que a coisa não anda.

Daniel Filho, então diretor da Central Globo de Criação à época da novela, comenta em seu livro Circo Eletrônico, não entender porque Força de um Desejo não atingiu o nível de audiência esperado, já que novela de época às 18h é uma receita antiga de sucesso. Argumenta também que o elenco de peso, que tinha grandes feras como Sonia Braga, Selton Mello e Nathalia Timberg, era mais um elemento que tinha tudo para dar certo.

Alcides Nogueira, coautor, também defende o elenco “fantástico”, comentando que “é uma das novelas mais bonitas que a Globo já produziu até hoje”, sendo bem dirigida por Marcos Paulo e pelo Mauro Mendonça Filho, diretor que atualmente vem se destacando em trabalhos recentes.

Meu Deus?! Qual será a razão de tanta incompreensão e por que será então que o público não engajou na causa?

Alcides Nogueira acrescenta um pitaco importante nessa discussão: um erro de programação. Talvez, se fosse uma trama para as 19h ou para as 20h, teria alcançado um lugar ao sol.

Ao assistir qualquer imagem na internet, percebemos a excelente fotografia e nos encantamos com a direção de arte. Se a faixa das 23h para dramaturgia diária já existisse há 17 anos, quem sabe o resultado fosse outro.

Tempos Modernos (2010)

Essa novela pretendia abordar a relação homem-máquina. Ambientada no centro de São Paulo e encabeçada por Antonio Fagundes, na pele de Leal Cordeiro, que participou na construção do edifício Titã, o maior do Brasil, com 95 lojas e mais de sete mil residentes. Ele comprou todos os imóveis colocados à venda, exceto o de Hélia (Eliane Giardini), seu romance do passado.

O edifício Titã era controlado por um computador como personagem, Frank, que debochava, consolava ou questionava os moradores, além de contar com altos recursos tecnológicos. Qualquer referência a 2001 — Uma Odisseia do Espaço (1968), de Stanley Kubrick, não é mera coincidência!

A abertura da novela sintetizava bem o tema usado como pano de fundo, combinando com o título: era possível visitar alguns andares do prédio, em meio a uma cidade urbana, e observar algumas pessoas em situações inversas — quem não se lembra de um homem preparando jantar e esperando a mulher chegar do trabalho? -; tudo isso ao som de Cérebro Eletrônico, de Gilberto Gil.

Embora esse pano de fundo inovador sob uma trama folhetinesca adaptada de Rei Lear, de Shakespeare, a novela foi considerada modernosa demais pela audiência, fazendo até com que Frank saísse de cena.

A saída foi apostar nos romances, que salvaram a novela de ser um completo desastre: os triângulos Iolanda (Malu Galli), Hélia e Leal, assim como Zeca (Thiago Rodrigues), Renato (Danton Mello) e Nelinha.

Assim como tantas outras, Tempos Modernos renderia uma ótima série.

As Filhas da Mãe (2001)

A causa da incompreensão é “simples”: essa novela estava muito à frente de seu tempo, porque era toda contada de uma forma diferente: um rapper juntava as diversas histórias, já que não havia uma história central. Todos eram protagonistas de suas próprias tramas, sem vilões ou mocinhos.

Sílvio de Abreu, quando era autor de novela, conta no livro Autores, do projeto Memória Globo, que todos os envolvidos com a criação da obra, como Jorge Fernando, diretor da trama, Alcides Nogueira, co-autor, e Marluce Dias, diretora geral da Globo na época, ficaram eufóricos com a ideia. O elenco de comédia da emissora, que ia de Regina Casé a Luiz Fernando Guimarães, também topou participar, feliz da vida com o convite.

Porém, o tiro saiu pela culatra: uma novela tão inovadora acabou por subverter completamente as estruturas do folhetim, trazendo uma linguagem a qual muita gente não estava acostumada. A novela arrasou corações das classes A e B, mas não atingiu a galera das C, D, E.

Alcides Nogueira comenta que olhava São Paulo da varanda do seu apartamento, que dá vista para toda a Avenida Paulista. Junto com Sílvio, não entendiam o que dava errado, pois estavam mostrando na novela o que existia na rua, sem inventar nada.

Já Silvio de Abreu disse que ficou perplexo ao ter os resultados do primeiro grupo de discussão, pois o feedback que tinha nas ruas era o de enorme sucesso, com cartas e e-mails cheios de críticas entusiasmados. A opção de encurtar o trabalho foi a preferida por Silvio de Abreu ao invés de mudar a trama inteira, para não trair sua ideia.

Aliás, acostumado a não ter suas novelas compreendidas logo de cara pela audiência, Silvio acha que as pessoas sempre reclamavam que não estavam entendendo, porque público de novela é conservador.

Para o Ofício em Cena, programa da Globo News que entrevista profissionais da teledramaturgia, o autor compartilha que enfrentou a cobertura do sequestro de Patrícia Abravanel que levou a audiência para a concorrência, além da queda do World Trade Center.

Espelho Mágico (1977)

Assim como Silvio de Abreu, Lauro Cesar Muniz é outro autor que facilmente ganharia fácil o título de “incompreendido da história da teledramaturgia”, pois é um profissional arrojado.

Um dos mais antigos autores de novela, Lauro escreveu títulos como Casarão, que se passava em três épocas simultâneas: um prato cheio para criar uma confusão e tanto no espectador mais distraído!

Espelho Mágico foi a primeira novela metalinguística da TV: a novela dentro da novela. Hoje facilmente vista como cult, mas na época, chegou a dar 55 pontos de audiência, quando a Globo dava 80 pontos tranquilamente.

Como o próprio nome diz, a história propunha um jogo de espelhos entre realidade e ficção. Os bastidores da montagem de uma peça e da fictícia novela Coquetel de Amor, protagonizada por Diogo Maia (Tarcísio Meira) e Leila Lombardi (Glória Menezes), abordam os conflitos entre atores, diretores e jornalistas envolvidos nas duas produções.

Mas o que gerou confusão no público foi mesmo a montagem paralela entre as cenas de Coquetel de Amor, fictícia, com as de Espelho Mágico, misturando ainda mais as tramas das duas novelas. Para piorar, os atores começam a ensaiar uma peça de teatro, produzida e protagonizada por Diogo, e assim como a novela fictícia, os problemas pessoais de Diogo também interferiam na peça.

Proposta muito interessante para uma novela, porém a metalinguagem não contribuiu para elevar o potencial que a ideia tinha. Talvez, contar esses bastidores em um seriado, série ou filme fosse o melhor. Embora não tenha sido um sucesso de público, Lauro César Muniz ganhou diversos prêmios da crítica.

Suave Veneno (1999)

Escrita por Aguinaldo Silva, Suave Veneno teve um bastidor tão complicado, que quase virou uma novela à parte. Feita às pressas — como bem contou Aguinaldo Silva em seu blog algumas vezes, esta não era a sua vez de escrever para o horário -; enfrentou o auge do Programa do Ratinho, bombando com testes de DNA no SBT, fazendo com que Suave Veneno segurasse o bastão de “pior média” do então horário das 8 por um bom tempo.

Com a intenção de ser cinematográfica, optando por entregar à novela uma estética mais realista com cenas externas, Suave Veneno teve apenas uma fachada cenográfica: as demais foram realizadas, em sua maioria, em uma rua do bairro de Laranjeiras, zona sul do Rio.

Porém, tudo isso não foi o antídoto necessário para evitar que a novela não se envenenasse ao tentar subverter alguns esquemas clássicos da telenovela, fazendo com que a trama ficasse um pouco confusa, ao tentar fazer uma narrativa de mistério em que poucos personagens sabem algumas informações importantes, mas o público não.

A vingança arquitetada pela advogada Clarice Ribeiro (Patrícia França), filha bastarda do empresário Waldomiro Cerqueira (José Wilker), contra o próprio pai, usando a história de Maria Inês (Glória Pires) não ficou bem definida para o público.

A intenção era apresentar Glória Pires como uma mulher enigmática, que aparece na vida do pernambucano que lutou muito para erguer a Marmoreal, quando a reencontra no momento que está rodando de táxi pelas ruas do Rio — era um dos hábitos que Waldomiro tinha para não perder a origem humilde. Um acidente de trânsito, Inês perde a memória, Waldomiro decide levá-la para dentro de casa: mais inverossímil, impossível! Waldomiro se apaixona pela mulher misteriosa, para desagrado da família, formada pelas filhas Maria Regina (Letícia Spiller), Márcia Eduarda (Luana Piovani), Maria Antônia (Vanessa Lóes) e a ex-mulher Eleonor (Irene Ravache). Waldomiro acaba se entregando para a nova paixão porque se sente desamparado pelo clã, que discorda do seu jeito arcaico de comandar sua empresa, conflito encabeçado por Maria Regina que nutria certo desprezo pela origem humilde do pai e se julgava a mais qualificada para assumir seu posto.

Bang Bang (2005–2006)

Já diz Aguinaldo Silva que novela é coisa pra macho! Mário Prata que o diga e ele deve ter chegado à essa conclusão muito antes do término: sentindo os efeitos de uma tendinite calcária, o autor abandonou o boeing com três meses de novela no ar, que acabou não decolando como os realizadores e a emissora esperavam.

Já no segundo capítulo, a audiência caiu drasticamente, acompanhada de uma chuva de críticas, que traziam negatividade e até mesmo maledicência poucas vezes vistas, ganhando o título de “incompreendida máster” na história da telenovela. As principais vítimas foram Mário Prata — cronista com espaço fixo no Estadão e na revista Época, tinha passado quase 20 anos sem escrever novela desde a última na Manchete, Helena, em 1987 — e Fernanda Lima, ex-modelo e lançamento como protagonista, pelas mãos de Ricardo Waddington.

Bang Bang começou com toda a pompa e circunstância: primeiro capítulo primoroso, com um flashback do passado de Ben Silver (Bruno Garcia), todo em desenho animado, inspirado nos traços dos animes orientais mostrando a chacina que acabou com a família de Ben, comandada por Paul Bullock (Mauro Mendonça) e o motivo para o menino decidir voltar à pequena Albuquerque, disposto a acabar com o homem que destruíra sua família e seus sonhos.

No entanto, ele não contava se apaixonar justo pela filha de Paul Bullock, Diana (Fernanda Lima), que o impediria de matar seu desafeto.

Em termos de direção de arte, a novela marcou a primeira cidade cenográfica da TV Globo ambientada no Velho Oeste, com direito a saloon, igreja, delegacia, hotel e armazém, referências clássicas do bangue-bangue. Os figurinos também se basearam em filmes de western e até Moulin Rouge (2001).

Aliás, muitos consideravam que o figurino e a cenografia eram apenas as duas coisas boas de toda a novela.

Em meio às críticas de inabilidade do autor em gerir uma equipe de colaboradores e um roteiro que mais parecia uma crônica, sem ganchos fortes, característicos para segurar o público no horário, a saída foi convocar Carlos Lombardi, mas era tarde demais. A trama passou a investir mais na comédia, equilibrando drama e ação, algo que já estava no projeto original de Prata, ao invés do melodrama carregado que aquilo virou.

Lombardi se apropriou da novela, trazendo sarcasmo e aventura: colocou seus “descamisados” e criou outros personagens como Mac Mac (Iran Malfitano), Dona Zorrah (Nair Bello) e Calamity Jane (Betty Lago).

Além de toda essa crise nos bastidores, a concorrência estava forte, com Prova de Amor — atualmente em reprise na Record. Curiosamente, embora fosse um western, Bang Bang tinha muito menos violência que a trama da Record.

A violência também foi um dos problemas, inclusive, que atrapalhou a novela. A trama já estava em produção quando foi aprovado o referendo do desarmamento. Para muitos, era estranho uma novela tendo armas como ponto fundamental — já que se passava no Velho Oeste — em um momento que a populacão brasileira ia às urnas para bani-las do cotidiano. A solução foi os personagens lutarem artes marciais.

O fato de a Globo chamar um autor diferente da centena de autores que tem à disposição já era um sinal de que buscava novamente o caminho da experimentação. Além disso, o faroeste latino, ou Western Feijoada, divergindo do tradicional, era uma tentativa de reconquistar a vanguarda da criação e afastar o marasmo que já rondava sua teledramaturgia dez anos atrás.

Sentiu falta de alguma novela? Deixe nos comentários para enriquecer ainda mais a nossa conversa! Tem muitas outras que poderiam estar nesta lista.

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